Ttulo: Uma razo para amar
Autor: Natalie Patrick 
Ttulo original:  Wedding bells and diaper pins
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publicao original: 1995
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

Primeiro veio o beb...
Tudo o que Daniele McAdams queria era casar-se com Matthew Taylor e construir uma famlia... Mas, graas  paixo fantica de Matthew por seu trabalho, nada disso aconteceu. Agora, Daniele tinha a chance de tornar-se me de um beb adorvel. Porm, para isso, ela precisava vencer uma terrvel batalha judicial... que s Matthew poderia ajud-la a vencer.
E ento veio o casamento...
Como advogado de Daniele McAdams num complicado caso de adoo, Matthew estava disposto a tudo para ajud-la. No entanto, a certa altura, ele descobriu que s havia um modo de ganhar a causa: casando-se com ela.





CAPITULO I

Daniele Olivia McAdams, voc aceita este homem como seu legtimo esposo, apoiando-o na sade e na doena, na alegria e na tristeza, at que a morte os separe?
Daniele suspirou. Sabia que todos os olhares convergiam para ela,  espera da resposta. Um calafrio percorreu-lhe a espinha. O tempo parecia suspenso e a tenso era quase palpvel no ar.
Ela voltou-se para o homem alto e magro a seu lado, Roger Grant, que a fitava com um misto de surpresa e censura, como se dissesse:
 Responda de uma vez, querida... E no nos faa esperar mais. Voc s vezes  to infantil!
Mas Daniele continuava calada, enquanto os pensamentos corriam-lhe pela mente numa velocidade vertiginosa.
"Oh, Deus", lamentou-se, em pensamento. Ali estavam ela e Roger Grant se casando, depois de quatro meses de namoro e muitas discusses, nas quais ele sempre dava a ltima palavra. Afinal, Roger era to prtico e, ela, por demais infantil...
Amor, sensaes sutis ou arrebatadoras, sonhos...
Nada disso fizera parte de sua relao com Roger. Para ele, os sentimentos eram um amontoado de sensaes confusas, que no valiam a pena ser mencionadas ou discutidas. O que contava, realmente, era o senso prtico. Nisso Roger era perfeito.
Quanto a Daniele... Bem, ela aprendera que a felicidade era um sonho irrealizvel. Chegara a essa concluso ao ver seu romance com Matthew Ryan Taylor desmoronar como um castelo de cartas. Depois, resolvera enfrentar a vida sob seu aspecto mais duro e cruel. A felicidade no existia. E fora com essa disposio que ela aceitara a corte de Roger... Bem como a proposta daquele casamento que agora lhe parecia totalmente desprovido de sentido.
Roger pressionou-lhe levemente a mo, chamando-a de volta  realidade. O silncio no cartrio civil de Woodbridge era total. Os poucos convidados presentes continuavam com os olhos fixos em Daniele,  espera do sim. Era Como se no ousassem sequer respirar.
O juiz repetiu a pergunta, num tom solene. Daniele ouviu-a com os olhos semicerrados. Seu corao pulsava to rpido, que ameaava sufoc-la.
	Eu...  ela balbuciou, mas no conseguiu concluir a frase.
O sol da tarde filtrava-se pelas altas janelas do cartrio, desenhando rstias douradas no cho de mrmore branco.
Daniele soltou a mo da de Roger. Com a outra, ela segurava o buqu de rosas brancas, que de repente parecia-lhe muito pesado...
	Responda de uma vez, querida.  A voz de Roger soou neutra e muito baixa, mas havia um toque de censura naquelas palavras... Um toque quase imperceptvel, por sinal.
De repente, em meio ao silncio denso, ouviu-se um gritinho de beb. Durou apenas uma frao de segundo, mas foi suficiente para que Daniele se contrasse, como se atingida por um duro golpe.
Roger tocou-lhe o brao, dessa vez num gesto mais urgente. Daniele fitou-o no fundo dos olhos cinzentos, com uma expresso de desespero.
	Eu... No posso  ela por fim conseguiu murmurar.
	O que disse?  Roger indagou, espantado, como que se recusando a crer no que acabava de ouvir.
	No posso  ela repetiu, num tom mais alto.
	Querida, voc enlouqueceu?  ele indagou, atnito. Era a primeira vez, Daniele pensou, que Roger demonstrava suas emoes.
	Por favor...  Ela o fitava com ar de splica.  Antes que eu diga sim, preciso esclarecer um ponto...
	Daniele, este no  o momento para...
	Preciso lhe dizer que pretendo manter Kyle comigo, mesmo depois de casada  ela o interrompeu, com uma coragem que no sabia ao certo de onde vinha.  Por favor, diga que aceita esta condio.
	Muito bem, filha.  A voz de Samantha McA-dams, me de Daniele, soou em meio aos convidados. Ela era uma senhora alta e imponente como a filha, de cabelos grisalhos presos num coque e uma expresso altiva. Segurava nos braos o pequeno Kyle, de sete meses, que sem dvida ignorava ser ele o motivo daquela situao de impasse.
A interferncia da velha senhora pareceu acender os nimos. Um burburinho correu entre os convidados.
Daniele sabia que precisava tomar uma atitude, e rpido.
A situao estava se tornando insustentvel. E num tom de voz que soou-lhe estranho, como se no lhe pertencesse, ela anunciou:
	Desculpem-me, mas preciso conversar a ss com meu noivo por alguns instantes.
	Se quiser, pode utilizar minha sala, senhorita...  o juiz ofereceu, num tom gentil, embora a fitasse com perplexidade. Apontando uma porta  esquerda, explicou:   logo ali.
	Obrigada  Daniele agradeceu e, tomando a mo de Roger, afastou-se com ele em direo  sala.
	Querida, voc pode me explicar o que significa essa loucura?  Roger indagou, fechando a porta da saleta.
Apontando o buqu para o noivo com uma expresso decidida, ela respondeu:
	Significa que no estou disposta a abrir mo de Kyle para me casar com voc. No posso, em s conscincia, entreg-lo  famlia Delaney. Eu... Jamais me perdoaria por isso. Acho que morreria de remorsos.
Os olhos cinzentos de Roger estreitaram-se numa expresso de raiva, mas sua voz soou inesperadamente calma ao argumentar:
	Voc se esquece de que aquele beb pertence  famlia Delaney...
	Apenas por laos de sangue.
	E voc acha que isso  pouco?
	A famlia jamais se importou com ele. Vernica e Sarah Delaney no esto interessadas em Kyle. S querem adot-lo para provar ao velho Jonathan Delaney que elas tm bom corao e, assim, merecem herdar sozinhas toda a sua fortuna. Roger meneou a cabea, irredutvel.
	Mas o que est acontecendo com voc, Daniele? Ns j conversamos tanto sobre esse assunto... Por que traz-lo  tona justamente agora?
	Porque no posso viver sem Kyle  ela afirmou, com um suspiro.  Eu simplesmente no conseguiria, Roger. Pelo amor de Deus, procure compreender.
	Creio que  voc quem deve ser compreensiva e parar com essas infantilidades. Ns temos um plano, lembra-se? Combinamos que ambos vamos trabalhar durante um ano. Depois, voc ficar grvida e deixar o emprego no hospital. Eu, a essa altura, j terei conseguido a chefia no departamento de engenharia da prefeitura e poderei nos manter de maneira digna e confortvel...  Roger fez uma pausa e ajeitou a gravata borboleta.  Como voc v, no h lugar para aquele beb, em nossas vidas.
	Voc no entende o quanto ele  importante para mim?  ela argumentou, com lgrimas nos olhos.  Os pais de Kyle eram meus melhores amigos e...
	Oh, no  Roger apartou, impaciente.  No vamos falar desse assunto trgico, num momento que afinal  o mais feliz de nossas vidas. Alm do mais, se voc chorar, poder borrar sua maquiagem...
	Que se dane a maquiagem!  Daniele quase gritou. 
	Decididamente, voc no est sendo nada razovel  Roger repreendeu-a, com sua costumeira segurana.
	Voc no se importa nem um pouco com os meus sentimentos  ela protestou, com voz trmula.
	Isso no  verdade. Eu no teria decidido despos-la, se no me importasse com voc  ele afirmou, num tom paternal.  Voc sempre disse que sonhava em formar sua prpria famlia, no  mesmo? Por isso estamos nos casando.
	Para formar a nossa famlia...  Daniele repetiu, pensativa.
	Exato. E agora, pelo amor de Deus, pare com essa cena lamentvel, sim? Creio que estamos abusando da pacincia do juiz, bem como dos convidados...
Ignorando a advertncia de Roger, ela insistiu:
	Por que no podemos comear com Kyle? J seria o princpio de uma famlia...
	Ele no  nosso filho legtimo.
	Para mim,  como se fosse  ela afirmou, com veemncia.  Oh, Roger, juro que o ensinarei a amar Kyle...
	Decididamente, no  ele a interrompeu.  O nico modo de iniciarmos, verdadeiramente, uma famlia, ser gerando nossos prprios filhos. E assunto encerrado.
	 sua ltima palavra?  ela o desafiou.
Roger suspirou,  beira da exasperao.
	Mas que diabos est ocorrendo com voc, afinal? Uma semana atrs, quando discutimos exaustivamente esse assunto, voc concordou em entregar o beb  famlia Delaney. E agora est querendo me forar a aceit-lo como meu prprio filho. Por qu, Daniele?
	O motivo pode se resumir numa nica palavra: amor.
Ele fitou-a com ar confuso, como se houvesse acabado de ouvir uma grande tolice.
	Amor?  repetiu, com um gesto vago.  Mas como voc pode dizer que ama aquele beb se, at ento, s o conhecia atravs de fotos?
	Isso no  verdade. Eu j o tinha visto antes, por ocasio do batizado. E, alm do mais, faz um ms que ele est comigo.
	Um ms no  tempo suficiente para desenvolver um amor to profundo assim  Roger contraps.
	O amor independe do tempo  Daniele sentenciou.  Ser que voc pode compreender isso, Roger?
Ele sorriu, com uma ponta de desdm:
	Eis a uma afirmao muito potica, mas nada realista.
	Eu amo aquele beb  Daniele replicou, com obstinao.   como se ele sempre houvesse estado comigo, desde que nasceu.
	Isso  sentimentalismo barato - Roger retrucou, irritado.  Voc est muito confusa... Toda essa correria dos ltimos dias, com os preparativos do nosso casamento, a deixaram desgastada.
	No, Roger.  Daniele ajeitou os cabelos negros que caam-lhe sobre os ombros; enfeitados, por uma tiara de seda trabalhada com prolas e brocais.  Eu no estou confusa, ao contrrio: tenho certeza absoluta de que no devo me separar de Kyle.
	No era assim que voc pensava, h alguns dias  ele argumentou, num tom frio.
	Eu cedi s suas exigncias sobre Kyle, para evitar um choque entre ns  ela confessou. E levou a mo ao peito, na altura do corao.  Mas aqui dentro... Eu jamais concordei com esse ato desumano.
	Querida, voc deveria ter seguido a carreira de atriz  Roger comentou, ferino.  Pois tem uma veia dramtica realmente impressionante...
Ignorando as palavras do noivo, Daniele afirmou:
	A amiga de Bill e Karen trouxe Kyle desde o Alaska at aqui... Para entreg-lo a mim! Fez isso porque sabia que era esse o desejo deles.  Num tom carregado de emoo, acrescentou:  Sou a pessoa mais indicada para criar aquele beb e nada no mundo poder mudar este fato.
Roger cruzou os braos.
	Como pode ter tanta certeza disso?
	Ora... Eu simplesmente sinto que as cosias devem ser assim. Kyle  meu afilhado. Prometi a Karen e Bill que cuidaria dele, se algo lhes acontecesse.
	Fechando os olhos por um instante, ela concluiu:
	Apenas, eu no imaginava que eles pudessem partir desse mundo to cedo.
Roger meneou a cabea, num claro sinal de desaprovao:
	Pronto... L vai voc se entregar de novo ao sentimentalismo excessivo.
Um sorriso amargo estampou-se nos lbios de Daniele.
	Voc realmente no consegue compreender a linguagem dos sentimentos, no , Roger?
	O que sei  que voc perdeu o contato com esses amigos h alguns anos, desde que eles partiram para o Alaska. E depois s os encontrou por ocasio do batizado do beb...
	Que eles fizeram questo de realizar aqui em Woodbridge, na esperana de que o velho Jonathan reconhecesse o bisneto. Mas aquele homem deve ter uma pedra no lugar do corao.
	No quero discutir sobre a atitude do sr. Jonathan Delaney  Roger apartou, friamente.  S desejo faz-la compreender que este sbito derramamento de amor com relao a seus falecidos amigos no tem sentido, j que...
	Se soubesse como sonhei em rev-los!  Daniele o interrompeu, contendo o choro.  E quantas vezes planejei tirar frias para visit-los! Entretanto, o tempo foi passando e o destino nos pregou uma triste pea... Roubando-os de mim e de tantas outras pessoas que os amavam.
	E mesmo assim voc insiste em manter essa promessa absurda.
	Sim  Daniele respondeu, convicta.  Eu lhes dei minha palavra de que cuidaria de Kyle. E vou cumpri-la a qualquer custo. No se trata apenas de um direito legal, mas tambm de uma obrigao moral, entende?
	Analisando a situao sob esse ponto de vista, eu diria que a obrigao moral no  apenas sua, mas tambm do padrinho da criana.
	Matthew Ryan Taylor  ela murmurou, como se pronunciasse um nome proibido.  Deixe-o fora disso.  A imagem de Matthew estampou-se em sua mente com uma nitidez cruel. Mas Daniele sufocou aquela lembrana dolorosa e incmoda. Por que pensar em Matthew naquele momento? Por que recordar o homem que um dia lhe acenara com as mais belas promessas de felicidade?  No  sobre Matthew que estamos discutindo e sim sobre Kyle Delaney, certo?  ela disse, por fim.
	Certo. No quero perturb-la, falando de Matthew Taylor. Apenas, acaba de me ocorrer que ele bem poderia assumir a guarda do beb. J pensou nisso, Daniele?
	Ele j  por demais comprometido com sua carreira de advogado brilhante  Daniele argumentou, controlando o tremor da voz.  No creio que lhe sobrasse tempo para cuidar de uma criana de sete meses.
	Tampouco voc ter tempo para isso, querida  Roger sentenciou.
Daniele fitou-o por um longo momento, perguntando-se por que, exatamente, resolvera casar-se com aquele homem que parecia pertencer a um mundo to diferente do seu.
A resposta era muito simples: fizera isso para esquecer Matthew. E porque sabia que jamais conseguiria ser feliz com ningum, exceto com ele. Mas Matthew trocara a felicidade de ambos por uma carreira de sucesso. E, para ela, nada restara seno encarar a solido e fazer uma tentativa de construir uma famlia com Roger Grant.
Mas quem, afinal, era Roger Grant? Um homem prtico e frio, que a tratava como a uma criana e que nunca poderia cpmpreend-la. Que chances haveria para ambos?
	Nenhuma  ela respondeu, como se para si.
	O que disse, Daniele?
Ela fitou-o no fundo dos olhos. Agora sim, sabia que no voltaria atrs em sua deciso. Talvez fosse tarde demais para firmar seu ponto de vista... Mas, ainda assim, estava disposta a tentar. E foi o que fez:
	Roger, voc nunca me levou muito a srio. Meu modo de encarar o mundo lhe parece infantil, eu sei... Entretanto, peo-lhe que me oua com ateno.
	Pode falar; estou ouvindo.
	Kyle Delaney  a prioridade de minha vida. E eu pretendo mant-lo comigo, com ou sem a sua concordncia. Ser que fui clara?
	Como a gua, querida.
	E ento, o que me diz?
	Digo-lhe, Daniele Olivia McAdams, que voc ter de escolher entre aquele beb e eu.
	Voc tem certeza do que est me propondo?
	Absoluta. Ou voc fica com Kyle Delaney, ou comigo.
	Nesse caso, eu escolho Kyle.
	O qu?
	Nosso casamento est cancelado, Roger Grant.
	Voc no pode estar falando srio!
	Nunca falei to srio em toda a minha vida. S no entendo por que no tomei essa deciso antes. Isso nos pouparia de muitos constrangimentos.
	Daniele, voc perdeu o juzo?!
	Na verdade, acabo de recuper-lo. Eu devia estar louca quando concordei em me separar de Kyle, isso sim.
Antes que Roger pudesse replicar, uma batida leve soou na porta. Daniele abriu-a e deparou com Sa-mantha McAdams, sua me, que segurava Kyle no colo, juntamente com uma baby-bag.
	Filha, o que est acontecendo?  Samantha McAdams indagou, aflita.
	Sua filha est descontrolada, sra. McAdams 	disse Roger.  E eu sinceramente j no sei o que fazer para cham-la de volta ao bom-senso.
	O que h com voc, querida?  Samantha perguntou, num tom carinhoso, ajeitando os cabelos negros da filha sob a tiara de seda.  As pessoas esto esperando e o juiz j est se mostrando impaciente.
	Ouviu isso, Daniele?  Roger repreendeu-a.
	Voc est se portando como uma criana mimada. Est sendo terrivelmente grosseira, para dizer o mnimo...
	No fale assim com ela  Samantha o advertiu.  Isso s servir para deix-la mais nervosa.  Em seguida voltou-se para a filha.  E ento, meu amor, como se sente? Se entendi bem, o motivo dessa discusso  este anjinho aqui...  E beijou os cabelos loiros de Kyle.
Como resposta, Daniele depositou o buqu de rosas no cho. Em seguida tomou o beb nos braos e pegou a baby-bag que pendia do ombro de Samantha.
	Daniele, o que est fazendo?  Roger indagou.
Ela nem sequer se importou em responder. Apenas fitou Samantha com intensidade e disse, com voz trmula:
	No tenho tempo para explicar nada, agora. Voc  a melhor me do mundo e aposto que compreender minha atitude. Entrarei em contato mais tarde, est bem?
	Como assim, filha?  Samantha a olhava, desconcertada.
Tambm dessa vez, Daniele no respondeu. Ajeitou Kyle nos braos e s ento voltou-se para Roger:
	Sinto muito, mas o casamento est cancelado. Por favor, perdoe-me. No quero faz-lo sofrer, mas o fato  que no posso ceder as suas exigncias.  Com um sorriso triste, ela acrescentou:  Alm do mais, eu no o faria feliz.
Ante o olhar perplexo de Samantha e Roger, Daniele saiu.
Os convidados voltaram-se para ver a noiva afastar-se, quase correndo, em direo  sada.
	O que houve?  indagou o juiz, como se no acreditasse no que acabava de acontecer.
Alguns convidados repetiram a pergunta, trocando olhares atnitos. Mas nenhum deles sabia, exatamente, o que responder. E ningum ousou interpelar o noivo que, muito plido, aproximou-se do juiz e conversou com ele em voz baixa.
	A noiva fugiu?  perguntou uma garotinha.
	Psiu, querida  a me respondeu, tomando-a no colo e abrindo passagem entre os convidados, rumo  porta.
	Fugiu?  a criana tornou a insistir, longe de supor a gravidade do que estava acontecendo.

CAPITULO II

Matthew Taylor contemplou longamente a foto sobre a lareira, tirada por ocasio de sua entrada na faculdade.
Quantos anos ele teria, na poca...? Vinte e cinco, talvez. Sim, Matthew pensou. Era isso mesmo. Havia entrado tarde na faculdade, pois tivera de interromper os estudos para sustentar o pai vivo. Por fim, o velho sr. Lester Taylor conseguira receber uma modesta aposentadoria. E Matthew pudera realizar o sonho de ingressar na faculdade.
O namoro com Daniele McAdams comeara logo depois. E durante cinco anos Matthew sentira-se o mais feliz dos homens.
O tempo, no entanto, encarregara-se de levar para longe suas iluses, deixando no lugar o gosto amargo da solido.
Um sorriso a um s tempo triste e irnico estampou-se nos lbios de Matthew. Abrira mo de tudo, at mesmo do amor de Daniele, para criar uma estabilidade financeira que jamais tivera quando criana.
Valera a pena? Matthew receava que no.
Afora o alto status social que gozava na pequena cidade de Woodbridge, bem como o fato de ser um dos advogados mais brilhantes do Estado de Indiana... O que lhe restara?
	Nada  ele disse, baixinho, o corao oprimido
pela angstia.
O sonho dourado de construir uma famlia, com a mulher que tanto amava, fracassara. O preo do sucesso fora muito alto... Quase desumano. E Matthew pagara.
Se ao menos fosse possvel reverter o tempo... Matthew pensou, sabendo de antemo que era tarde demais para isso. Pois, naquele dia, Daniele McAdams desposaria outro homem.
	J desposou  ele se corrigiu, em voz alta, lanando um olhar tenso na direo do relgio-cuco, na parede.
Passando a mo pelos cabelos loiros, ele murmurou:
	Seu grande idiota. Voc a mandou embora, com seu fanatismo doentio pelo trabalho e pelo sucesso. Voc a expulsou de seu afeto, com aquela mania de adiar o casamento indefinidamente, deixando bem claro que o amor no era a prioridade... Daniele lhe deu todas as chances e voc desperdiou-as. E agora no pode culpar ningum, exceto a si mesmo, por esse sofrimento.
Correndo os olhos pela sala luxuosamente mobiliada, Matthew contemplou o diploma emoldurado em cerejeira, que pendia de uma parede. Mas no se deteve ali, e sim no pster ao lado, de onde Daniele McAdams lhe sorria, muito bela, usando um vestido rosa-plido de seda. A foto fora tirada h cerca de seis meses, na festa de aniversrio de Daniele, a qual ele no comparecera, pois chegara exausto do trabalho e acabara adormecendo no sof, depois de tomar um banho. Tencionava aprontar-se para a festa, mas o cansao falara mais alto. E no dia seguinte uma discusso ferrenha pusera fim ao romance e s promessas de uma vida feliz com a mulher que tanto amava.
Matthew suspirou profundamente. Podia lembrar-se com clareza da fria e da mgoa estampada nos olhos verdes de Daniele, ao dissolver o romance. Na semana seguinte ela viajara a fim de participar de um simpsio de Medicina em Wayne, a mesma cidade onde ele cursara Direito e defendera uma tese brilhante.
Daniele acabara se demorando em Wayne por quase dois meses, fazendo um curso de aperfeioamento em Enfermagem e... Tentando superar a crise causada por uma profunda desiluso. Ao menos fora isso que Matthew ouvira de Samantha McAdams, quando a procurara para saber notcias de Daniele.
H pouco mais de quatro meses ela retornara a Woodbridge, para assumir um cargo importante no maior hospital da cidade... E tambm para aceitar a corte de Roger Grant, um homem recm-chegado de Chicago para trabalhar como engenheiro na prefeitura local. Um homem com quem Matthew jamais simpatizara, devido a sua frieza e calculismo.
Se a notcia do namoro de Daniele e Roger atingira Matthew como um duro golpe, o casamento de ambos o deixara literalmente arrasado. Era terrvel imaginar Daniele nos braos de outro homem, sobretudo de algum como Roger Grant. E Matthew chegara  concluso de que Daniele jamais o amara de verdade. Caso contrrio, ela no teria se envolvido, to rapidamente, com outra pessoa.
Por vrias vezes ele pensara em procur-la, para reatar o romance... Mas desistira. J tivera sua chance com Daniele McAdams e a perdera. Ela que tentasse ser feliz.
Mas com Roger? Ele pensava, inconformado. Era absurdo!
E o tempo, independente dos mal-entendidos e do infinito sofrimento dos humanos, seguia seu curso.
Instalado num luxuoso escritrio no centro comercial de Woodbridge e residindo numa casa situada no bairro nobre da cidade, Matthew entregava-se ao trabalho de maneira obstinada. Alcanara o objetivo to almejado: status social e financeiro, bem como o reconhecimento profissional. Era s isso que lhe restava. No tinha mais ningum no mundo, pois seu pai falecera h cinco meses. E Daniele o abandonara. Era um homem sozinho, entregando-se de corpo e alma  profisso, numa tentativa de preencher o grande vazio que trazia no peito... Em vo. A solido era uma fera faminta, a devorar o corao das pessoas sensveis. Intil lutar contra ela. S havia uma fora no mundo capaz de combat-la: a felicidade. Mas essa "riqueza estava proibida para Matthew.
Ele havia se encontrado com Daniele por trs vezes, nos ltimos meses, desde que ela retornara de Wayne. Uma vez no shopping e, duas, no centro da cidade. Fora muito difcil portar-se de maneira indiferente diante da mulher que jamais esqueceria. Mas Matthew conseguira cumpriment-la de modo amvel e distante, sem demonstrar suas verdadeiras emoes.
Ele fechou os olhos por um momento. Se ao menos pudesse ver Daniele mais uma vez, a ss, como antes... Se pudesse ouvi-la falar o seu nome daquele modo suave, que soava como uma carcia...
 Matthew!
Ele meneou a cabea, com um sorriso triste. A saudade e o sofrimento estavam lhe pregando peas. Pois poderia jurar que acabava de ouvir Daniele chamando-o...
	Matthew, voc est a?
Com uma expresso que era a um s tempo de incredulidade e espanto, ele voltou-se na direo da ampla janela envidraada da sala, coberta por uma cortina cor de marfim. A silhueta de Daniele McA-dams, visvel atravs do tecido fino da cortina, era real demais para ser confundida com uma alucinao.    Ser possvel?  ele pensou, em voz alta.
	Matthew, se voc estiver em casa, por favor deixe-me entrar. Estou com as mos ocupadas e no posso tocar a campainha.
Uma srie de perguntas acorreram  mente atordoada de Matthew. Teria enlouquecido? Era isso? Ou Daniele de fato viera procur-lo?
E no caso dessa .ltima hiptese ser verdadeira, o que, exatamente, Daniele fazia ali, justamente no momento em que deveria estar na festa de casamento... De seu casamento com Roger Grant?!
Um sopro de esperana invadiu o corao de Matthew, que por um instante ousou imaginar que Daniele tinha resolvido voltar para ele... No! Seria uma grande loucura pensar assim.
Mais absurdo ainda era continuar ali, imvel no meio da sala, fazendo cogitaes. Num impulso, ele precipitou-se na direo da porta, enquanto Daniele continuava a cham-lo com a voz carregada de angstia.
	Matthew Ryan Taylor! Eu vi seu carro na garagem. Portanto, voc deve estar em casa. Pelo amor de Deus, abra essa...
Antes que ela conclusse a frase, Matthew abriu a porta. Uma avalanche de emoes contraditrias o invadiu, no momento em que ele deparou com a mulher que tanto amava.
A vontade de tom-la nos braos era irresistvel, mas Matthew controlou-se. E ento recordou o quanto implorara a Daniele para no romper o romance. E ela mantivera-se irredutvel em sua deciso.
A mgoa e o orgulho ferido sobrepujaram a alegria de rev-la. E Matthew recuou um passo, dando-lhe passagem. S ento reparou no txi parado em frente  casa e no motorista, que observava a cena com curiosidade.
	Preciso falar com voc  Daniele afirmou, com voz trmula.
	Estou s suas ordens, srta. McAdams  ele respondeu, num tom sarcstico. Sempre recorria  ironia e ao humor ferino, quando se sentia encurralado pelas prprias emoes. Era esse seu modo de se defender.  Ou ser que devo cham-la de... Sra. Grant?  acrescentou.  Pois imagino que, a esta altura, voc j deva ter asumido o sobrenome de seu dignssimo esposo.
	Poupe-me de suas piadinhas infelizes, por favor --- ela pediu, num tom que era quase uma splica.
	Posso entrar?
	Claro  ele aquiesceu, mirando-a de cima a baixo. Estava muito bonita com seu vestido de noiva, modelg channel, de corte simples e sbrio. E trazia nas mos uma grande bolsa do tipo que as mes
usavam para transportar objetos de beb.  Belo traje, Daniele...  comentou, imprimindo  voz um
tom zombeteiro.  Parece bem apropriado para uma cerimnia de casamento.
Mas Daniele j no o ouvia. Precipitando-se na direo do txi, ajeitou a bolsa sobre o ombro e em seguida pegou no colo um beb, que dormia no banco de trs. Despediu-se do motorista, que partiu em seguida. Ento voltou para perto de Matthew, repetindo a pergunta:
	Posso entrar?
	Podem  ele aquiesceu, olhando espantado para o beb que dormia placidamente. Fechou a porta e conduziu Daniele at a sala.
Ela descalou os sapatos de saltos altos e pisou o carpete macio, cor de marfim como as cortinas. Depositou delicadamente o beb sobre o sof, retirou a tiara de seda que trazia nos cabelos e colocou-a sobre a mesinha baixa, de centro. S ento deixou-se cair sobre uma poltrona, com um profundo suspiro.
Matthew a fitava com ar desconcertado,  espera de uma explicao que no tardou a vir:
	Estou numa situao muito difcil  Daniele confidenciou.  E voc  a nica pessoa que pode me ajudar.
Matthew assentiu em silncio. Ela prosseguiu:
	Voc sabe quem  esse beb, no?
	Claro  ele assentiu, sem denunciar as fortes emoes que o assaltavam, agravadas pela lembrana do batizado do beb, pouco antes do rompimento do romance com Daniele... Pouco antes de sua vida desmoronar por completo, com a perda da mulher amada, o falecimento do pai e de dois queridos amigos. Mas nada disso transparecia nos olhos azuis de Matthew, que no tom mais neutro que conseguiu, acrescentou:  Este  Kyle Delaney, nosso afilhado, filho de Karen e Bill, que morreram recentemente.
	Voc fala deles como se lhe fossem estranhos  Daniele comentou, num tom de acusao.  Entretanto, eram nossos melhores amigos.
	S Deus sabe o quanto senti a morte de Bill e Karen  Matthew afirmou, num tom rspido.  Mas no creio que voc tenha vindo at aqui s para me ouvir fazer declaraes de amor sobre eles. E quanto ao pequeno Kyle...  continuou, apontando o beb adormecido  Ouvi dizer que voc ia entreg-lo  famlia Delaney, antes de se casar. Voc sabe, as notcias correm rpido em nossa pequena e querida cidade.
	Nesse caso, voc j deve saber, tambm, que era meu desejo adotar Kyle... Mas Roger Grant no permitiu.
	Essa parte eu ignorava.
	E foi por isso mesmo que acabei de romper meu casamento com ele.
	Voc... O qu?  Matthew reagiu, espantado.
	Interrompi a cerimnia e tentei convencer Roger a adotar Kyle. Expliquei-lhe o quanto esse beb  importante para mim. Mas Roger no compreendeu, ou ao menos no quis compreender. Percebendo que seria intil continuar argumentando, eu joguei tudo para o alto.
	Jogou...?  Matthew franziu o cenho.  Como assim?
	Sa correndo do cartrio, no meio da cerimnia.
	Santo Deus!
Daniele tomou flego para concluir:
	Para resumir o assunto, no pretendo mais me casar com Roger, nem tampouco entregar Kyle  famlia Delaney.  por isso que estou aqui, entende?
	Sinceramente, no  ele respondeu, perplexo.
	Preciso de sua ajuda, no apenas como advogado, mas tambm como amigo.
	Por favor, seja mais clara, Daniele McAdams. Voc est me deixando cada vez mais confuso e ator doado, com tantas novidades.
Daniele ficou em silncio por alguns momentos, como se escolhesse as palavras para o que tinha a dizer. Com gestos trmulos, desabotoou os dois primeiros botes do vestido de noiva, de gola alta. Sentia-se sufocada e respirava com dificuldade, devido ao nervosismo que ameaava domin-la.
	Quer um suco?  Matthew ofereceu.  Ou um drinque seria mais apropriado.
	Apenas um pouco de gua, por favor.
Matthew foi at a cozinha e retornou logo depois, trazendo um copo de gua fresca para Daniele, que sorveu-a em longos goles.
	Quanto a mim, preciso de um drinque  ele anunciou, caminhando at o bar situado a um canto da sala. "Afinal, no  todo dia que a mulher amada literalmente'despenca  nossa porta, depois de fugir de seu prprio casamento", pensou, enquanto se servia de uma dose de scotch. Voltan-do-se para Daniele, perguntou:  Tem certeza de que no quer me acompanhar?
	No, obrigada.
Trazendo seu drinque sem gelo,  moda texana, Matthew sentou-se na poltrona em frente a Daniele. Sorveu um pequeno gole da bebida e retomou a conversa:
	Bem, onde estvamos?  Recorrendo novamente  ironia, acrescentou:  Ah, sim, voc me devia algumas explicaes...
Daniele fitou-o longamente. Ainda agora, seis meses aps ter dito adeus a Matthew, no conseguia manter-se indiferente diante dele. Os olhos azuis e lmpidos de Matthew pareciam adivinhar-lhe os mais secretos pensamentos... Olhos que ela jamais esquecera! Duas sairas preciosas que um dia haviam lhe acenado com as mais loucas promessas de felicidade. Ela meneou a cabea, como se assim pudesse afastar as lembranas de um passado pleno, que tanto lutava para esquecer. E imprimindo um tom firme  voz, abordou o assunto:
	Em primeiro lugar, preciso de voc como amigo. Quero que me receba por alguns dias. No desejo me expor a uma infinidade de perguntas que mame e alguns amigos certamente faro, depois da atitude que acabo de tomar. Necessito de tempo para me reestruturar e, assim, enfrentar as conseqncias do escndalo que causei.
	Pelo menos as fofoqueiras da cidade tero motivo de conversa por um bom tempo.
	Como pode fazer piadas, a essa altura dos acontecimentos?  ela reagiu, ofendida.
	Desculpe.  Matthew sorveu mais um gole de scotch.  O humor sempre me" ajuda a encarar melhor as surpresas da vida.
	Ser que voc no compreende o quanto minha situao  desesperadora?  ela protestou.
"E quanto a minha situao, querida?" Ele retrucou, em pensamento. "Como acha que me sinto ao v-la aqui, em minha casa, sem poder tom-la nos braos e dizer que continuo a am-la como sempre, como nunca?"
Mas em vez de confessar seus sentimentos, Matthew apenas afirmou:
	Voc pode contar com minha amizade. Agora, gostaria de saber de que modo poderei auxili-la, como advogado.
	Bem, eu j lhe disse que quero adotar Kyle. S que Vernica e Sarah Delaney, primas de Bill e, portanto, primas de Kyle em segundo grau, tambm querem.
Matthew fitou-a com ar confuso:
	Pensei que a famlia Delaney estivesse de acordo com voc, ou seja, que no se oporia ao seu desejo de adotar o beb.
	A princpio, sim  Daniele respondeu, angustiada.  Mas acontece que na semana passada eu mesma entrei em contato com as irms Vernica e Sarah...
	E ento elas disseram que tinham mudado de idia e resolvido ficar com o beb  Matthew concluiu.  Foi isso?
	No  Daniele esclareceu, num fio de voz.  Eu lhes contei que ia me casar e que no poderia manter Kyle comigo... Da pedi que o adotassem.
	Mas por que diabos voc fez isso?
	Eu j lhe disse: porque cedi  presso de Roger  ela respondeu, exasperada.
	Certo  ele aquiesceu, lutando para vencer a vontade de tomar Daniele nos braos e consol-la longamente, com palavras doces e muito amor.  Conte-me como foi a conversa com as irms Delaney.
	O modo como reagiram diante da perspectiva da adoo de Kyle... Foi cruel, desumano.
	Explique isso melhor.
	 muito simples: elas no esto interessadas no beb. Alis, nunca estiveram.
	Nesse caso, voc no tem motivos para se preocupar. Telefone para as irms Delaney e diga-lhes que mudou de idia, que resolveu ficar com Kyle.
	A coisa no  to fcil assim  Daniele argumentou.
	Por que no?
	Porque Jonathan Delaney, av de Bill e bisav de Kyle, entrou em cena.
	No entendi.
	Bem, voc sabe que Jonathan Delaney criou Bill desde muito pequeno.
Matthew assentiu com um gesto e acrescentou:
	Sei tambm que o tal Jonathan o deserdou quando ele se casou com Karen, que era de um nvel social mais baixo. Mas o que isso tem a ver com o caso?
	Tem que o poderoso Jonathan Delaney arrependeu-se do que fez com Bill...
	Um pouco tarde demais, no acha?  Matthew comentou, com amarga ironia.  No h nada que ele possa fazer por Bill, a essa altura.
	Exceto tentar curar seu remorso, transferindo para Kyle tudo o que ele j no pode dar a Bill. E por isso que Jonathan quer adot-lo, incorporando-o  famlia.
	Como sabe disso?
	Vernica e Sarah me contaram. Jonathan quer que ambas lutem pela custdia de Kyle. E elas faro isso, no exatamente por amor ao beb, mas para no perderem as graas do poderoso Jonathan. Afinal, ele costuma deserdar os parentes que o contrariam... E elas no querem correr esse risco.
	Compreendo  Matthew assentiu, num tom severo.  Mas por que o prprio Jonathan no luta pessoalmente pela adoo do bisneto?
	Ele no quer aparecer no caso. Ao menos foi isso que Vernica me falou. Eu havia mesmo estranhado a sbita mudana de atitude dela com relao a Kyle...
	Como assim?
	Na primeira vez em que conversamos, tanto ela quanto Sarah mostraram-se totalmente desinteressadas com respeito  adoo. Mas dois dias depois me telefonaram, marcando um encontro para, segundo elas, esclarecer alguns pontos. Foram at minha casa e pediram para ver Kyle. Ento, portaram-se como as primas mais carinhosas do mundo, ansiosas para assumir a custdia do mais novo membro da famlia. Isso causou-me uma grande estranheza, naturalmente.
	E ento o que voc fez?
	Questionei-as sobre aquele sbito derramamento de amor... E Vernica acabou abrindo o jogo.
	Pobre criana  Matthew comentou, lanando um olhar emocionado na direo do beb adormecido. Sorveu mais um gole de scotch e voltou-se para Daniele.  Preciso lhe fazer algumas perguntas, para ter uma noo mais clara do caso.
	Pergunte-me o que quiser, Matthew.
	Bem, para comear... Quem lhe trouxe Kyle do Alaska at aqui?
	Uma amiga de Karen e Bill. Seu nome  Mary-Ann.
	Certo. E baseada em que, exatamente, essa moa lhe entregou a criana?
	No testamento que Bill deixou, manifestando o desejo de que Kyle fosse entregue a meus cuidados, caso...  Daniele no terminou a frase. Ainda agora, era difcil acreditar que seus melhores amigos tinham partido para sempre, de forma trgica, num desastre de avio.
	E Mary-Ann entregou-lhe uma cpia do testamento?  Matthew indagou.
	No  Daniele respondeu, sem entender.  Por qu?
	Bem, ela deve ao menos ter lhe dado um documento despachado pelo juiz de menores da comarca onde Bill e Karen moravam, autorizando-a a ficar com a criana.
	No.  Daniele meneou a cabea.  Mary-Ann simplesmente trouxe-me o beb, junto com alguns pertences de Karen e Bill.
	E como  que ela sabia sobre o testamento?
	Bil1 deve ter lhe contado, eu acho.
	E quanto a voc? J estava a par da existncia desse testamento?
	Bem, o prprio Bill nos falou sobre isso, por ocasio do batizado, lembra-se?
	Como poderia me esquecer?  Matthew confessou, emocionado.  Aquele foi um dos dias mais felizes de minha vida.
	Foi, tambm, a ltima vez que vimos Karen e Bill, que partiram para o Alaska alguns dias depois.
Matthew fechou os olhos por um instante, lutando para controlar a tristeza:
	Recordo-me de Karen dizendo que voc era a segunde me de Kyle. E que se um dia ela e Bill se vissem impossibilitados de cri-lo...
	Entregariam o beb a mim  Daniele completou.  E ento Bill fez um gracejo, dizendo que voc seria o papai-estepe do beb, lembra-se?
	Sim. E naquele momento nenhum de ns poderia imaginar que...  Tambm Matthew no conseguiu finalizar a frase.
Mas Daniele compreendia muito bem o que ele queria dizer.
	Apesar da conversa ter um tom de brincadeira, eu levei aquela promessa muito a srio  ela afirmou.  E dei minha palavra a Karen e Bill de que eu cuidaria de Kyle, se algum dia fosse preciso.
Matthew assentiu com uma expresso grave.
	Ser que o pobre Bill teve tempo de registrar esse acordo num testamento?
	Imagino que sim  Daniele ponderou, pensativa.  Caso contrrio, como Mary-Ann poderia saber disso?
	Ela lhe disse, textualmente, que Bill tinha feito um testamento?
	Sim.
	Ento, precisamos conseguir uma cpia desse documento, para comear a batalha judicial.
	Obrigada  Daniele agradeceu, tomada por um misto de alvio e emoo.  Muito obrigada, Matthew.
O silncio caiu entre ambos. E Matthew foi o primeiro a quebr-lo.
	Voltando s irms Delaney... Voc prometeu a elas que lhes entregaria o beb?
Daniele respondeu com um gesto afirmativo de cabea e baixou os olhos, antes de dizer:
	Elas ficaram de passar em minha casa hoje  noite, para pegar Kyle. Prometi-lhes que eu o deixaria com minha me.
	Santo Deus!  Matthew exclamou, levando a mo  testa.  Decididamente, voc est numa grande enrascada.
	Isso eu j sei  ela aquiesceu, com um suspiro.
	Afinal, dei minha palavra a Vernica e Sarah Delaney...
	Estou me referindo ao aspecto legal do caso ele a interrompeu.
Ela tornou a assentir:
	Estou perfeitamente consciente da situao, Matthew. Mas quero lutar pela guarda de Kyle. E voc  o melhor advogado desta cidade, seno deste pas.
	Obrigado pela confiana, mas devo alert-la de que as coisas no sero to fceis assim.
Daniele franziu o cenho:
	Voc est me assustando com esse derrotismo, Matthew.
	No  minha inteno. Falo apenas da situao real.  Inclinando-se na direo de Daniele, ele acrescentou num tom cauteloso:  Voc j se deu conta de que acaba de cometer um crime?

CAPITULO III

Com os olhos verdes arregalados numa expresso de espanto, Daniele procurava absorver a advertncia que tinha acabado de ouvir. E precisou de alguns minutos para se refazer, antes de pedir:
	Explique melhor essa histria de... Crime.  Um calafrio percorreu-lhe a espinha, ao pronunciar a ltima palavra da frase.
	O nome correto ... Seqestro.
	Como?
	Voc acaba de seqestrar aquele beb, Daniele. E eu estou me tornando seu cmplice.
	Oh, no  ela murmurou, mordendo o lbio inferior, num gesto de terrvel nervosismo.
	Infelizmente, esta  a verdade.
	Matthew, voc no est sendo dramtico demais em seu julgamento sobre o caso?
	Estou apenas avaliando a situao sob o ponto de vista jurdico.
	E quanto ao ponto de vista emocional?  ela protestou.  Ser que isso no conta?
Matthew sorriu, complacente.
	Daniele Olivia McAdams... O juiz que julgar este caso no se ater aos sentimentos e sim aos aspectos legais da questo.
Os olhos de Daniele encheram-se de lgrimas e sua voz soou trmula ao suplicar:
	Por favor, no deixe que me tirem Kyle.
	Vou tentar.  Matthew terminou o drinque com ar pensativo.  Juro que vou.  Depositou o copo sobre a mesinha de centro e ficou em silncio por um longo momento.
Daniele o olhava ansiosa, enxugando uma ou outra lgrima furtiva que escorria-lhe pelo rosto de traos delicados.
	Bem, o que voc pensa fazer sobre esse caso?  ela indagou, por fim.
	Preciso pensar melhor, mas a princpio j consegui determinar os primeiros passos.
	Pode cont-los para mim, por favor?
	Claro.  Ele fez uma pausa.  Bem, hoje  sbado e os cartrios esto fechados. Mas na segunda-feira irei procurar as irms Delaney. Explicarei a elas que voc decidiu ficar com Kyle definitivamente. Se elas concordarem, selaremos o assunto num cartrio e tudo estar resolvido.
	E se elas insistirem em lutar por Kyle na justia, como alis imagino que faro, no por ele, mas para contentar o velho Jonathan?  Daniele contraps.
	Nesse caso, teremos uma longa batalha judicial pela frente. Jonathan Delaney  um homem poderoso e poder contratar timos advogados.
	Nenhum deles, por mais competente que seja, conseguir derrot-lo, Matthew  Daniele afirmou, com veemncia.
	Agradeo mais uma vez o elogio... Mas o caso no depender apenas de minha competncia profissional.
	Como assim?
	Se Jonathan Delaney resolver encarar essa luta, ele j sair com uma grande vantagem.
	Qual?
	Jonathan  parente direto de Kyle. Esse fato, por si s, poder ser suficiente para convencer o juiz.
Daniele ia argumentar, quando o telefone tocou, fazendo-a estremecer.
	No diga a ningum que estou aqui  ela ordenou, num fio de voz, enquanto Matthew atendia  chamada.
	Al? Ah, como vai, sra. Samantha McAdams? Ele lanou um olhar a Daniele, consultando-a.
Ela respondeu com um brusco meneio de cabea e um veemente pedido de silncio.
	Como? A senhora quer saber se Daniele me procurou? Mas claro que no. Alis, ela no ia se casar hoje? Como? Ela fugiu no meio da cerimnia, levando Kyle consigo? E as irms Delaney acabam de telefonar dizendo que...  Ele interrompeu-se, passando a mo pelos cabelos loiros num gesto nervoso.  Compreendo. Naturalmente que sim, senhora. Lgico... Se ela me procurar eu lhe pedirei para entrar em contato. Certo... De nada, senhora.
	Matthew desligou o telefone, fixando Daniele com seus olhos azuis como safiras.  S mesmo voc poderia fazer isso comigo... Transformar-me em cmplice num crime de seqestro e obrigar-me a mentir para sua prpria me.
	Perdoe-me, Matthew  ela desculpou-se, depois de sorver o ltimo gole de gua e depositar o copo sobre a mesinha.  Eu sinto muito... Juro!
Kyle choramingou, e Daniele correu a acalm-lo, murmurando palavras doces e acariciando-lhe os cabelos cacheados.
Diante daquela cena, Matthew se comoveu. E prometeu a si mesmo que faria de tudo para que Daniele conseguisse adotar o beb.
Kyle tornou a adormecer. P ante p, Daniele voltou a sentar-se na poltrona. Em voz baixa, indagou:
	O que foi que minha me disse?
	O bvio  Matthew resumiu.  Ela est aflita com tudo o que aconteceu e quer saber do seu paradeiro. Imaginou que tivesse vindo me procurar e...
	Pobre mame  Daniele o interrompeu, com um suspiro.  Vou ligar para ela mais tarde e pedir-lhe desculpas.
	Ela ficar furiosa comigo, quando souber que menti.
	Mame compreender  Daniele afirmou, pensativa.  Ela  uma pessoa maravilhosa.
	Nesse ponto, ns concordamos.  De fato, Matthew sempre gostara muito de Samantha McA-dams. Na verdade, considerava-a como a me que nunca tivera. Mas tudo isso ficara no passado.
	E quanto s irms Delaney?  Daniele indagou, interrompendo-lhe os pensamentos.  O que mame falou sobre elas?
	Vernica Delaney telefonou para avisar que tinha enviado o motorista da famlia, para buscar Kyle. Sua me contou-lhe que voc desapareceu, levando o beb. Vernica reagiu pessimamente, como era de se prever. Disse que isso no ficar assim, que a famlia tomar providncias.
	Ejito, ser mesmo a batalha judicial  Daniele concluiu, com ar sombrio.
	Exato. Vernica avisou que esperar que voc entre em contato at segunda-feira, no mximo. Caso contrrio, constituir um advogado e iniciar um processo.
O telefone tocou novamente. Matthew atendeu.
	Al? Quem fala? Ah, sim... Como? No, eu no sei do paradeiro de Daniele McAdams. Por que acha que eu deveria...? Certo, est bem. At logo.  E desligou.
	Quem era?  Daniele perguntou, com o corao aos saltos.
	Seu ex-noivo, Roger Grant.
	Oh, no.
	Temos de ir embora daqui e rpido. Estarei pronto em dez minutos.
	Obrigada, mais uma vez  ela agradeceu, comovida.  Algum dia espero poder retribuir esse imenso favor.
Matthew, que subia as escadas em direo ao quarto, j no a ouvia. Precisava arrumar algumas roupas e objetos pessoais na valise de viagem, o mais depressa possvel.
	Daniele McAdams...  ele murmurava, transpondo os degraus de dois em dois.  S mesmo voc poderia transformar minha vida pacata nesse caos. S mesmo voc...  E com um misto de assombro e alegria Matthew compreendeu que jamais deixaria de amar aquela mulher.
	Era s o que faltava!  Matthew exclamou, ao ouvir o som inconfundvel do pneu que acabava de estourar, logo depois da curva na estrada que conduzia a Bloomington.
Estacionou o reluzente Range Rover cerca de cento e cinqenta metros adiante, no acostamento, e saltou.
	Espere um momento.  Daniele tambm desceu, com Kyle nos braos. O beb estava sorridente e muito calmo, depois de tomar uma mamadeira que Daniele havia preparado na cozinha de Mat-thew, antes de sair.  Vou ajud-lo.
	Voc ouviu o que ela disse, mocinho?  Matthew brincou com o beb, que agitou os bracinhos em sinal de alegria.
	Voc no acredita em mim, no  mesmo?  Daniele protestou.  Pois saiba que sou uma verdadeira especialista em trocar pneus.
	J tentou fazer isso com um beb nos braos?  Matthew provocou-a, abrindo o bagageiro do Range Rover para retirar o estepe e as ferramentas necessrias  troca.
	Se fosse preciso, eu conseguiria  Daniele sentenciou.  Desenvolvi uma grande habilidade em trocar pneus, graas  minha terrvel sorte.
	Como assim?
	E que tenho uma tendncia especial para conseguir pneus furados, nas situaes mais incrveis que voc possa imaginar. Tive um pneu furado na noite de minha formatura do curso de especializao em Wayne... E tambm no primeiro dia de trabalho como enfermeira chefe, na Santa Casa de Wood-bridge... Ah, sim, j ia me esquecendo de que o mesmo ocorreu hoje cedo, quando eu voltava do salo de cabeleireiro para minha casa.
Matthew riu:
	Bem, parece que sua sorte est nos acompanhando.  E comeou a trocar o pneu.
A poucos metros do acostamento havia um carvalho centenrio, que oferecia sua sombra refres-cante na bela tarde ensolarada. Algum tinha colocado um velho tronco junto  rvore, que servia como um banco bastante confortvel a quem quisesse descansar um pouco.
Daniele acomodou-se ali, com o pequeno Kyle. Estava exausta, mas aliviada. E no queria nem pensar nos aborrecimentos que o futuro lhe reservava.
Teria de dar muitas explicaes a respeito de sua atitude naquela manh, abandonando Roger Grant no meio da cerimnia de casamento. Precisava desculpar-se com ele, com a me e os demais convidados... Isso, sem contar a terrvel batalha judicial que enfrentaria, lutando contra a famlia Delaney pela guarda de Kyle.
"Sim..." Ela pensou, com um suspiro. Teria de ser forte, para alcanar seus objetivos. Mas o fato de saber que podia contar com Matthew a tranqilizava imensamente. No estava sozinha em sua luta, afinal. E isso era um grande alento.
Daniele arregaou as mangas da camisa xadrez, grande demais para ela, tanto quanto o moletom cinza que estava usando, juntamente com um par de tnis de lona que era pelo menos cinco nmeros maior do que o seu... Matthew havia lhe emprestado aquelas roupas para a viagem. Apesar de serem muito largas, eram mais cmodas do que o vestido de noiva, que no momento estava no banco traseiro do Range Rover, junto com algumas compras que Matthew tinha feito numa loja de convenincias, na sada de Woodbridge.
Daniele sorriu, fitando com ternura o homem que j fora seu noivo e que agora parecia muito concentrado em trocar o pneu do Range Rover.
Na verdade, seus sentimentos por Matthew iam muito alm da mera ternura. Mas Daniele estava disposta a sufoc-los.
No fundo, sempre soubera que jamais conseguiria esquecer Matthew. Ele apossara-se de seu corao h muito tempo... E nada no mundo poderia reverter esse fato.
Mas Daniele sabia, tambm, o quanto sofrer por aquele homem que sempre colocara o trabalho e o sucesso profissional em primeiro lugar... Relegando o amor para um humilhante segundo plano. Isso, ela no admitira. No fora por outro motivo que rompera o noivado, mesmo amando Matthew profundamente.
Por todas essas razes, ela agora pretendia preservar-se. No suportaria sofrer uma segunda desiluso com Matthew Taylor. Portanto, o melhor que tinha a fazer era manter uma distncia prudente entre ambos.
Agitando os bracinhos, Kyle alcanou uma mecha negra de cabelos de Daniele e sorriu. Ela sorriu de volta, beijando-lhe as mozinhas delicadas.
	Meu querido... O fato de estarmos juntos compensa a imensa loucura que cometi nesta manh... E sabe de uma coisa? Eu faria tudo de novo, se fosse preciso.
O beb a fitava com seus lmpidos olhos azuis. Naturalmente, no compreendia as palavras de Daniele, mas percebia o amor que elas transmitiam.
Daniele acariciou-lhe os cabelos loiros e cacheados, o rostinho de pele macia e rosada.
	Voc herdou os olhos de seu papai Bill e os cabelos dourados de sua mame Karen... Creio tambm que herdou o bom corao de ambos. Eles partiram, mas deixaram o fruto de seu amor para consolar a mim e s pessoas que tanto os estimavam.
	Aconchegando o beb nos braos, ela acrescentou:
	Algum dia, Kyle, eu lhe contarei muitas histrias lindas sobre seus pais. E prometo-lhe que farei de tudo para ser uma boa mame para voc.
As lgrimas ameaaram vir aos olhos de Daniele, que lutou para control-las. Quantas vezes j havia jurado a si mesma que no choraria mais por Bill e Karen, que transformaria a dor e a saudade em amor... Um amor que entregaria a Kyle, todos os dias, todas as horas.
Recostando-se contra o tronco do velho carvalho, ela fechou os olhos por um instante. As plpebras pesavam-lhe e Daniele pensou que seria bom descansar um pouquinho... S um pouquinho.
Matthew acabou demorando bem mais tempo do que o previsto, para trocar o pneu do Range Rover. Essa tarefa, que ele normalmente realizaria sem o menor problema, parecia-lhe agora bastante complicada. A chave da roda escapava-lhe das mos, os parafusos encaixavam-se mal e ele tinha de retir-los para coloc-los novamente.
A explicao para tantas dificuldades era muito simples: Matthew estava tenso e confuso. H muito que no se sentia to frgil e isso o desconcertava.
A todo momento olhava para a rodovia pouco movimentada, esperando ver Roger Grant se aproximando... Ou talvez a viatura policial de Woodbridge.
No temia apenas por si mesmo, mas sobretudo por Daniele e Kyle. As conseqncias da atitude que ela havia tomado poderiam ser desastrosas. E Matthew no via a hora de estar a ss com ambos, num local protegido. S ento poderia tomar as providncias legais para tentar resolver aquele caso- complicado.
Se Roger Grant ou a polcia os encontrasse antes disso, sua reputao como advogado ficaria seriamente comprometida. E ele nada poderia fazer por Daniele ou pelo pequeno Kyle.
 Droga  Matthew resmungou, no momento em que a chave de roda escapou-lhe das mos novamente, quase atingindo-o no joelho.  Tenha calma, Matthew Taylor  ordenou-se, lutando para vencer a tenso que ameaava domin-lo.  Voc j esteve em situaes piores e conseguiu se sair bem.
Seria verdade? Ele se perguntou. E concluiu que no.
Como advogado, j trabalhara em casos bastante intrincados. E jamais perdera uma causa. Mas uma coisa era lutar nos tribunais sob o ponto de vista estritamente profissional. Outra, bem diferente, era ter como cliente a mulher que amava e amaria para sempre...
Afastando da mente esses pensamentos incmodos, Matthew por fim conseguiu colocar o estepe da maneira correta. Guardou o pneu furado no bagageiro, junto com a caixa de ferramentas. Limpou a mo numa estopa e s ento voltou-se na direo de Daniele, para cham-la:
	Podemos seguir, agora.
Ela no se moveu, nem tampouco o pequeno Kyle. Matthew ento aproximou-se e contemplou por um longo momento aquela cena comovente: Daniele e o beb dormiam serenamente, compondo um quadro que ele teria fotografado, se pudesse. Mas uma cmera fotogrfica seria a ltima coisa que Matthew pensaria em levar, naquela viagem iniciada s pressas. Assim, no lhe restava outra alternativa seno guardar aquela imagem na memria, como uma das belas que j vira em sua vida.
Sentando-se ao lado de Daniele, ele tocou-lhe o ombro num gesto delicado.
	Ei, Dani... Acorde, querida.
Ela suspirou, mas manteve os olhos fechados. S havia uma pessoa no mundo que a chamava de Dani, pronunciando o apelido carinhoso com infinita suavidade. E essa pessoa era...
	Matthew!  exclamou, baixinho, ao abrir os olhos. Levou alguns segundos para compreender onde estava. O calor do pequeno Kyle contra o peito acabou por traz-la de volta  realidade. Ela acariciou o beb adormecido e ento sorriu.  Parece que ambos pegamos no sono...
	E no era para menos.  Matthew sorriu de volta.  Levei sculos para trocar o pneu.
	Pensei que voc fosse um craque nisso, dr. Taylor  ela gracejou.
	No me provoque, enfermeira McAdams.
Ambos riram. Dr. Taylor e Enfermeira McAdams... Era assim que costumavam-se chamar-se, em tom de brincadeira, quando ainda eram estudantes. S no podiam adivinhar, na poca, que no mais estariam juntos quando conseguissem, de fato, ser o Dr. Taylor e a Enfermeira McAdams.
	Eu no quis provoc-lo, doutor.  Daniele continuava a gracejar.  Estou apenas surpresa com o fato de voc ter dispensado minha ajuda, alegando ser um exmio trocador de pneus...
	No era a esse tipo de provocao que eu estava me referindo  Matthew interrompeu-a, fitando-a com intensidade.
Ao compreender o significado daquelas palavras, Daniele enrubesceu. O rosto de Matthew estava muito prximo... Perigosamente prximo, por sinal. E por um momento Daniele perguntou-se se ele pretendia beij-la.
No houve tempo para cogitar a resposta. Os lbios de Matthew tocaram os dela de maneira suave, a princpio... Depois, de modo mais urgente, causando-lhe um misto de espanto e alegria. O desejo acendeu-se em seu ntimo como as brasas dormentes de uma fogueira que de repente voltasse  vida, impulsionada por um sopro de vento benfico. E Daniele correspondeu ao beijo com uma intensidade que chegou a surpreend-la.
Nunca, nem mesmo nos momentos de maior angstia, esquecera-se dos beijos de Matthew. Entretanto, jamais imaginara que eles pudessem acontecer novamente. E ali estava ela agora, incapaz de pensar, cativa daqueles lbios que exploravam os seus de maneira irresistvel, despertando-lhe emoes que ela tanto lutara por sufocar.
Um comboio de trs caminhes transportando cereais, a principal cultura de Woodbridge, passou pela rodovia. Mas nem Matthew nem tampouco Daniele se deram conta disso. Estavam alheios ao mundo exterior, entregues  magia que um dia haviam experimentado... E perdido. Agora, era como se recuperassem o longo tempo desperdiado em sofrimento e solido.
Mas o som dos possantes motores dos caminhes despertou o pequeno Kyle, que choramingou e remexeu-se nos braos de Daniele, interrompendo aquele momento de pura magia.
Ofegante, ela afastou o rosto afogueado e fitou Matthew com uma expresso de espanto.
 Ns... No devemos...  Foi tudo o que conseguiu balbuciar, antes de levantar-se para embalar o beb. Com passos incertos, caminhou na direo do Range Rover e acomodou-se no banco dos passageiros.
Aps alguns momentos que a Daniele pareceram uma angustiante eternidade, Matthew retornou ao veculo e sentou-se ao volante. Kyle continuava a choramingar e Daniele teve de elevar a voz para dizer:
	Por favor, Matthew, no faa aquilo de novo. 
Interrompendo o gesto de acionar a ignio, ele confessou:
	No pude evitar. Voc sabe muito bem que jamais a esqueci, Dani, e que...
	Por favor  ela repetiu, num tom de splica. Neste momento, mais do que nunca, eu preciso
de voc como amigo... Nada alm disso. Minha vida est um caos e eu no saberia lidar com...  Interrompeu-se, sem saber como continuar. Estava ofegante, com falta de ar devido aos batimentos acelerados do corao.
	Eu compreendo  Matthew assentiu, com um suspiro.  Vou tentar me controlar, Dani, mas isso no ser nada fcil.
	Posso imaginar...  Dani ele estremeceu. Sentia-se confusa e frgil, diante da avalanche de emoes que o beijo de Matthew havia lhe provocado. E pensar que tinha jurado a si mesma que nunca mais cederia aos encantos daquele homem!  Talvez eu no devesse t-lo procurado  concluiu, por fim.
	No fale assim  ele pediu, num tom suave. Eu j lhe prometi que farei de tudo para ajud-la, no ?
	Sei disso.  Ela sorriu, mas em seus olhos pairava uma nuvem de tristeza.  Sei tambm que no h chance alguma para ns, mas que apesar de tudo...
	Ainda no conseguimos matar o sentimento que temos um pelo outro  ele completou, a voz rouca de emoo.  No sei se isso acontece com voc...
Ela no respondeu e Matthew prosseguiu:
	Nos ltimos seis meses, eu tentei me relacionar com outras mulheres. E voc quase chegou a casar-se com outro homem...
	Eu estava desesperada  Daniele se defendeu. E no esperava ser feliz novamente... No depois de ter perdido voc. Assim, resolvi aceitar a proposta de Roger Grant. Afinal, ele era uma espcie de pai para mim e me despertava um certo carinho. Achei que talvez consegussemos viver razoavelmente bem, j que...  ela relutou, antes de finalizar:  j que eu no tinha mais esperanas de realizar meu sonho de amor.
	Voc no me perdeu  Matthew contraps.  Eu lhe implorei para continuarmos com o relacionamento, mas...
	Ora, no me venha com essa, Matthew Taylor 	Daniele apartou, com um misto de raiva e mgoa.
	Eu perdi voc, sim... Para sua carreira e sua sede de sucesso. Voc dizia que me amava, mas nunca se entregou totalmente a mim.
	Isso no  verdade.
	No?  ela repetiu, num tom acusatrio.  Quantas vezes voc cancelou nossos encontros, em funo de seus estudos na faculdade? E, depois de formado, em quantas ocasies me deixou esperando horas a fio, para resolver seus problemas profissionais?

	Muitas  ele admitiu, pesaroso.  Mas que diabos, Dani, voc no pode comparar minha carreira profissional com o nosso amor.
	Oh, claro que no  ela concordou, com amarga ironia.  Afinal, voc sempre foi mais apaixonado por sua carreira do que por mim.
	Pronto...  Matthew suspirou, com uma expresso de desalento.  L vamos ns repetir a mesma discusso que tivemos h seis meses quando...
	Eu compreendi que no adiantava esperar que voc algum dia colocasse nosso amor acima de tudo  Daniele completou, angustiada.  Por isso resolvi pr um fim ao noivado. Acho que  assim que as coisas devem continuar entre ns, sobretudo neste momento. "E o que vou fazer com a atrao irresistvel que sinto por voc, Dani?" Matthew quis retrucar, mas calou-se. Num tom sombrio, concordou:
	Voc tem razo.  melhor tentarmos ser sensatos, em vez de remexer nas feridas do passado.
	Obrigada por sua compreenso  ela murmurou, recostando-se no assento e aconchegando Kyle nos braos. Podia contar com o apoio de Matthew, bem como com uma saudvel distncia entre ambos. Mas, estranhamente, isso no a deixava feliz.
Ele acionou o motor e entrou na rodovia. O clima no interior do veculo era tenso e isso no passou despercebido a Kyle, que foi se tornando cada vez mais inquieto, choramingando e batendo os pezinhos de encontro ao porta-luvas.
	O que h com ele?  Matthew indagou, preocupado.,
	Est tenso e cansado, com toda essa agitao  Daniele explicou.  Kyle  uma criana muito sensvel.
	Todos os bebs so.  Estendendo a mo, Matthew acariciou os cabelos dourados de Kyle.  Tenha um pouco de pacincia, mocinho. Logo voc poder descansar, eu prometo.
	A propsito, voc ainda no me contou aonde estamos indo.
	Ao Paradiso  Matthew respondeu.  Trata-se de um hotel-fazenda, situado num local muito bonito, a meio caminho de Bloomington. Foi construdo recentemente e...
	Oh , no  Daniele exclamou, interrompendo-o.
	O que foi?  Matthew perguntou, sem entender.
	Era l que eu e Roger amos passar a lua-de-mel. O Paradiso, justamente por ter sido inaugurado h pouco tempo, est tentando conseguir uma boa clientela na regio. A gerncia distribuiu folhetos de propaganda em Woodbridge, oferecendo preos especiais para noivos.
	Tambm recebi o folheto  disse Matthew.  E agora me lembro da tal promoo...  Aps uma pausa, concluiu:  Bem, acho que teremos de mudar os planos.
	Quando voc me disse que conhecia um local ideal para ficarmos, no imaginei que se tratasse do Paradiso. Que estranha coincidncia...
	Que triste coincidncia.
	Voc tem idia de algum outro lugar aonde possamos ir?
	Sim  Matthew respondeu, depois de refletir por alguns instantes.  Vamos ao Green Place.  Mas, no fundo, no achava que essa fosse uma boa idia. Afinal, j havia estado l por duas vezes com Elizabeth Stoney, uma advogada'de Michigan que passara por Woodbridge, h cerca de um ms. Ela estava fazendo uma pesquisa sobre um caso complicado, no tribunal da cidade. Fora l que Matthew a conhecera.
Simpatizara muito com Elizabeth e oferecera-se para lev-la ao hotel. Ela aceitara e, para retribuir a gentileza, convidara-o para jantar. Pedira-lhe, depois, para mostrar-lhe a cidade e os principais pontos tursticos da regio. Matthew ento a levara para um longo passeio, numa noite enluarada e cheia de estrelas. A solido, que tanto lhe havia pesado nos ltimos meses, cedera um pouco diante da beleza e encanto de Elizabeth. Assim, ambos acabaram indo para o Green Place, a fim de desfrutar da companhia um do outro e da bela natureza ao redor.
Mas bastara uma primeira troca de carcias para Matthew compreender que no poderia fazer amor com aquela mulher. Pois seu corao ainda pertencia a Daniele.
Elizabeth, por sua vez, mostrara-se igualmente relutante. Confessara, entre lgrimas furtivas, que amava outro homem... E que agora compreendia que jamais poderia esquec-lo.
O fato, em vez de causar constrangimento a ambos, selara o incio de uma forte amizade.
Matthew convidara Elizabeth para voltar ao Green Place uma segunda vez, na semana seguinte. Os dois ocuparam o mesmo chal da primeira vez e passaram uma noite agradvel, ouvindo msica e conversando, numa tentativa de atenuar a solido que tanto lhes pesava.
	Amigos?  dissera Elizabeth, na manh seguinte, antes de retornar para Michigan.
	Amigos...  Matthew repetira, abraando-a como se ela fosse a irm que jamais tivera.  Para sempre.
Mas, naturalmente, para a graciosa e intrometida recepcionista do Green Place, ambos eram amantes.
A garota, que conquistara-lhes a simpatia desde a primeira vez em que os recebera, perguntara-lhes se pretendiam casar-se em breve. E sem esperar pela resposta, acrescentara:
; Venham passar a lua-de-mel aqui.
Matthew e Elizabeth haviam se entreolhado, compreendendo que de nada adiantaria explicar quela jovem romntica que ambos no eram amantes, mas grandes amigos. Entretanto, quem acreditaria naquilo? Ningum...
Para a maioria das pessoas, bastava ver um homem e uma mulher juntos, para rotul-los como namorados ou amantes. Ningum pensava que pessoas de sexo oposto poderiam desenvolver uma simples e slida amizade... Sem a interferncia de Cupido.
Agora, enquanto tomava a estrada vicinal que conduzia ao Green Place, Matthew sentia-se presa de uma estranha inquietao. E se a recepcionista do hotel fizesse algum comentrio indiscreto, ou perguntasse por Elizabeth?
Repreendendo-se por esse pensamento, Matthew afastou-o da mente.
Por que estava to preocupado, afinal? No devia satisfaes a ningum, nem mesmo a Daniele, sobre sua vida particular. Alm do mais, ela no estivera prestes a se casar com outro homem, naquela manh?
	Sou mesmo um grande idiota  ele murmurou.
	O que disse?  Daniele indagou, enquanto tentava acalmar o pequeno Kyle, que continuava muito agitado.
	Oh, nada.  Ele sorriu, com um misto de tristeza e ironia.  Eu falava comigo mesmo. As pessoas solitrias costumam fazer isso, sabe?
	Claro que sei, Matthew Taylor, pois padeo desse mesmo mal.

CAPITULO IV

	Nossa, que lugar lindo!  Daniele exclamou, ao avistar o vale onde se situava o Green Place, um conjunto de vrios chals espalhados pela encosta de uma colina verdejante.
	O Green Place tambm foi construdo h pouco tempo, mas  bem mais modesto do que o Paradiso. Aqui h apenas sete chals, ao passo que o Paradiso tem cerca de cinqenta apartamentos. Mas garanto-lhe que o atendimento  de primeira linha.
Ela assentiu, satisfeita. E sorriu para Kyle:
	O que voc acha, meu anjo? Isso no parece um pedacinho do cu?
O beb sorriu de volta, tentando firmar-se nos pezinhos, apoiando-se na janela do Range Rover.
	Ele aprovou  disse Daniele.
	timo  Matthew aquiesceu, dirigindo para a recepo do hotel.  Bem, aqui estamos.  E saltou do veculo depois de recomendar:  Vocs podem me esperar enquanto...
	Nem pense nisso  Daniele o. interrompeu, ajeitando o beb no colo e descendo do Range Rover.  Estamos ansiosos para esticar um pouco as pernas, no  mesmo, Kyle?
Resignado, Matthew adiantou-se e entrou no pequeno chal onde funcionava a recepo.
	Ora, vejam s quem est chegando!  exclamou a recepcionista com um largo sorriso.
	Como vai, Lorena?  Matthew saudou-a, num tom cordial.
	Muito bem, dr. Taylor, obrigada. Onde est Elizabeth?  S ento a garota viu Daniele entrando, com Kyle nos braos. E voltou-se para Matthew com uma expresso desconcertada.  Ora, eu... Pensei que...  E formulou a pergunta:  Ela  sua...
Antes que Lorena dissesse a palavra esposa, Matthew interveio a tempo:
	Esta  Daniele McAdams. E o anjo que ela traz nos braos chama-se Kyle.
Constrangida, Lorena sorriu para Daniele.
	Como vai, senhora... Senhorita...?
	Pode me chamar simplesmente de Daniele  ela ofereceu, num tom simptico.
	Oh, claro  a garota aquiesceu, ainda embaraada.  E a senhora, quero dizer, voc pode me chamar de Lorena. Seu beb  muito lindo, sabe?
	Obrigada.
	Voc tem um chal vago, Lorena?  Matthew indagou.
	Quer o de sempre?  a garota perguntou e em seguida levou a mo  boca, enrubescendo ao perceber que acabava de cometer uma nova indiscrio.  Oh, desculpe-me. Eu... Refiro-me ao...
	Chal nmero 3  Matthew completou, num tom que em nada denunciava seu embarao.  Est vago?
	Sim.  Lorena retirou uma chave do quadro e estendeu-a a Matthew. Em seguida deu-lhe duas fichas.
	Vamos preench-las no chal, se no se importa  disse Matthew.
	Como quiser, doutor  Lorena assentiu com gentileza, mas fitava-o com uma expresso de censura.
A porta  esquerda do balco de recepo se abriu, dando passagem a um rapaz que cumprimentou Matthew num tom srio:
	Boa tarde. Vou ajud-lo com a bagagem, senhor.
	No  preciso, Jimmy  Matthew recusou, com um sorriso.  Eu mesmo cuidarei disso.  Voltan-do-se para Daniele, sugeriu:  Vamos?
	Sim  ela aquiesceu e despediu-se de Lorena e Jimmy.  At logo.
O rapaz respondeu com um gesto de cabea. Mas Lorena cometeu a terceira indiscrio:
	At logo, Elizabeth.  E corrigiu-se em seguida, tornando a situao ainda mais constrangedora.  Quero dizer... At logo, Daniele.  Com um sorriso forado, tentou justificar-se:  Oh, queira me perdoar... Temos tantos hspedes, que acabamos confundindo os nomes.
	Claro  Daniele murmurou, saindo em direo ao carro.
Matthew fitou a recepcionista com ar de total desagrado.
	Diga-me, Lorena, alguma vez voc j pensou em como seria vantajoso manter a boca fechada em certas ocasies?
Muito corada, a garota ainda tentou se explicar:
	Desculpe, dr. Taylor. Eu no tive a menor inteno de coloc-lo em encrencas.  que sou muito espontnea e...
	Eu compreendo  Matthew apartou, contendo a irritao. Levando a mo ao bolso, deu uma boa gorjeta para Lorena e tambm para Jimmy.  At mais tarde.
J de sada, ainda ouviu Lorena dizer:
	Voc v, Jimmy, os homens so assim mesmo. Aposto que a pobre Elizabeth nem desconfia que ele tem uma esposa e filho...
	Isso no  problema seu, Lorena.
	Os homens so terrveis e cruis.
	Ei, deixe-me fora disso.
Se a conversa entre ambos continuou, Matthew no ouviu. Irritado, entrou no Range Rover e guiou em direo ao chal nmero 3, situado no ponto mais alto da colina.
"Mas por que estou to aborrecido?" Perguntou-se. "Afinal, eu j havia previsto que essa situao poderia acontecer."
Minutos depois, ele estacionava em frente ao chal, circundado por uma varanda espaosa e confortvel. Abriu a porta para Daniele e deu-lhe passagem.
Ela caminhou pela sala, cujo assoalho de madeira estava muito bem encerado, tendo ao centro um tapete com motivos andinos. Uma estante com aparelho de som e TV, um sof de madeira clara e cadeiras de lona compunham a moblia, juntamente com uma mesa baixa colocada a um canto.
A cozinha era pequena, mas muito bem guarne-cida com frigobar, fogo de duas bocas e uma pia com balco de granito.
A madeira predominava em todo o ambiente, exceto no banheiro, que possua piso de ardsia e paredes de azulejo cinza-claro.
	O quarto fica l em cima  disse Matthew, apontando a escada de cedro-rosa que conduzia ao mezanino.  Na verdade, trata-se de uma sute, pois tem um banheiro contguo e uma sacada que oferece vista para um conjunto de colinas. Dali se pode contemplar uma paisagem to bonita quanto essa...  Acrescentou, fazendo um gesto amplo em direo  varanda frontal do chal, de onde se podia divisar o vale l embaixo, cortado por um rio de guas lmpidas.  E ento, o que achou das acomodaes?
	Tudo por aqui  muito bonito e confortvel  Daniele opinou, sria.
	Que bom que voc gostou.  Retirando do bolso da camisa as fichas que Lorena havia lhe dado para preencher, ele depositou-as sobre a mesa de canto.  Depois cuidaremos disso. Primeiro, quero descarregar o carro.
	Eu o ajudarei, mas antes preciso dar um banho em Kyle. Ele est desconfortvel e faminto.
	Sim, faa isso e deixe a bagagem por minha conta.  Matthew foi at o carro e trouxe a caixa com as compras que havia feito na loja de convenincias em Woodbridge. Em seguida pegou a baby-bag com as coisas de Kyle e depositou-a no sof.
Quando Daniele desceu do mezanino, cerca de quarenta minutos mais tarde, Matthew j havia arrumado as compras na despensa da cozinha.
	Como est o beb?  ele indagou.
	Dormindo, depois de um bom banho e da ma-madeira. Terei de fazer mais um pouco de mingau e uma sopa de legumes, para quando ele acordar.
	Acho que comprei provises demais, para apenas dois dias de estada  Matthew comentou. Estava sentado no sof da sala, as pernas longas e musculosas apoiadas num banquinho baixo.
	Se no consumirmos tudo, voc poder lev-las para sua casa e aproveit-las  disse Daniele, sentando-se numa cadeira de lona.  Naturalmente, pretendo reembols-lo pelos gastos que est tendo comigo e Kyle.
	Pode esquecer essa idia : Matthew retrucou, com veemncia.
	Fao questo disso  ela replicou, categrica.
Algo na voz de Daniele denotava irritao, Matthew pensou, mas preferiu no fazer perguntas.
	E j que estamos falando em despesas, devo inform-lo de que pretendo remuner-lo pelos seus servios como advogado  ela prosseguiu.  Mas apesar de eu ganhar relativamente bem no hospital, creio que no poderei pagar tudo de uma vez... Ser que voc poderia parcelar os custos para mim?
	Dani, quer parar com essa conversa boba, por favor?  Matthew advertiu-a, com um sorriso.
	No vejo nada de bobo nisso  ela respondeu, rspida.
	Ora, voc sabe muito bem que no pretendo cobrar-lhe sequer um tosto pelos meus servios... Nem tampouco por nossa estada aqui no Green Place.  Com um sorriso modesto, ele finalizou:  Uma das poucas vantagens que tenho em minha vida  a ausncia total de problemas financeiros. Entende o que quero dizer?
	Oh, claro  ela aquiesceu, irnica.  Estava me esquecendo de que voc  um homem rico.
	Nem tanto, mas vivo com dignidade e bastante conforto.
	Voc bem que merece. Afinal, o sucesso e a estabilidade econmica sempre foram os nicos objetivos de sua vida. Por eles, voc foi capaz de abrir mo de tudo, no , Matthew?
	Se no me engano, ns concordamos em no tocar mais nesse assunto doloroso.
	Certo...  Daniele levantou-se e comeou a andar nervosamente de um lado a outro da sala.
	No vamos falar do passado. Somos dois seres adultos, independentes, e no temos por que olhar para trs. No devemos satisfaes dos nossos atos a ningum e...
	O que h com voc?  Matthew interrompeu-a, um tanto confuso.
	Nada. Por qu?
	Porque voc est me olhando como se quisesse me estrangular... Acertei?
	Quase.  Ela cruzou os braos e o encarou com ar de desafio.
	Quase  ele repetiu. Num tom irnico, indagou:  E posso ao menos saber o motivo desse desejo to sublime? Eu... Fiz algo que a desagradou?
	Ora, no se faa de desentendido, Matthew! ela perdeu a pacincia.  Foi muito deselegante de sua parte trazer-me ao lugar onde voc costuma vir com outras mulheres.
Longe de se chocar com aquelas palavras, Matthew sentiu-se invadido por uma onda de alegria. Ento era isso! Ento Daniele se importava com ele! E estava seriamente magoada por ter sido confundida com outra mulher.
Essa reao s poderia significar uma coisa: Daniele ainda no o havia esquecido totalmente.
Ele fechou os olhos por um instante, recordando cada detalhe do beijo que haviam trocado sob o velho carvalho, prximo da rodovia... Daniele tinha correspondido com intensidade. E, agora, ela confessava que estava...  Com cime!  Matthew concluiu, triunfante. As chances de reconquistar aquela mulher ainda no estavam de todo perdidas, ele pensou, enquanto em seus lbios delineava-se um sorriso.
Longe de compreender o que se passava no ntimo daquele homem, Daniele irritou-se ainda mais:
	Voc deve ter se divertido muito com o fato da recepcionista me confundir com sua amante. Mas ser que pensou em como eu me senti com esse lamentvel engano?
	Ora, no vejo por que voc se abalaria com isso, j que no se importa comigo.  Matthew no resistiu  tentao de provoc-la. E ousou ir mais alm:  Confesso que essa cena de cime est me deixando deliciosamente surpreso.
	Cime!?  Daniele repetiu, com um misto de raiva e perplexidade.  No se trata disso, mas sim de uma questo de amor-prprio. Eu... Detesto ser confundida com outras pessoas  sentenciou, mas no havia a menor convico em sua voz.  Matthew havia acertado em cheio. Ela estava realmente com cime, embora detestasse admitir. Lutando para no denunciar-se, acrescentou num tom de censura:  Voc no deveria ter nos trazido aqui.
	Tambm acho, Dani  Matthew concordou, ainda contendo a vontade de sorrir, de dar vazo  alegria que o inundava.  Voc sabe que eu tencionava ir ao Paradiso. Mas com a sbita mudana de planos, no me restou outra alternativa seno...
	Este hotel onde voc costuma passar momentos inesquecveis com sua imensa corte de admiradoras.
Ele riu, divertido:
	Nossa! Voc acha que so tantas assim?
	Ora, voc pensa que sou idiota, Matthew Taylor?  ela retrucou, descontrolada.  Sei muito bem que um homem inteligente, bonito e brilhante como voc pode ter quantas mulheres desejar.
	Puxa, eu no sabia que era to irresistvel assim  ele gracejou.  Voc acha ento que com um simples estalar de dedos as mais lindas mulheres do planeta cairiam a meus ps, suplicando por um pouco de carinho e ateno?
	Ora, v para o inferno, Matthew Taylor!
	Ei, fale mais baixo  ele recomendou, com ar zombeteiro.  Desse jeito acabar acordando Kyle.
	Voc est se divertindo um bocado  minha custa, no  mesmo?  ela o acusou, com as faces afogueadas pela indignao.
Ele continuava a sorrir, mas aos poucos foi assumindo uma expresso serena. Por fim, esclareceu:
	Foi apenas uma mulher que veio aqui comigo, por duas vezes. Quer que eu lhe fale a respeito dela?
	No, obrigada  Daniele respondeu, spera. No estou interessada e nem sirvo para conselheira sentimental.
	Mesmo assim, eu vou lhe contar.
	J disse que no quero ouvir nada  ela replicou, furiosa.  Mesmo porque, no tenho o menor direito de me intrometer em seus assuntos particulares.
	Esse tom acusatrio no lhe cai bem, Dani  Matthew comentou, num tom severo.  Afinal, voc se esquece de que hoje cedo ia desposar outro homem?
Ela o fitou com ar confuso, por alguns instantes. Seus olhos verdes assumiram uma expresso angustiada.
	Tem razo. Essa cena  no mnimo ridcula. E deixou-se cair sobre uma cadeira.  Droga, estou me portando como uma idiota. Sinto-me em meio a um verdadeiro turbilho de emoes contraditrias.  Pressionando as tmporas com fora, concluiu:  Estou desgastada, arrasada emocional-mente. E peo que desculpe meu descontrole. Voc est sendo muito bom para mim e eu no tenho o direito de lhe cobrar nada. Absolutamente nada... Matthew sorriu, dessa vez tomado por uma onda de ternura. E no tentou disfarar a forte emoo que o dominava, ao dizer:
	Oh, Dani, deixe-me lhe contar o que houve, na verdade.
Ela continuava a fit-lo, com uma expresso de abandono. No desejava, de modo algum, ouvir Matthew discorrer sobre seu romance com outra mulher. Mas sentia-se fraca demais para protestar.
Em poucas palavras, Matthew narrou sua relao com Elizabeth: o modo como a havia conhecido, a simpatia, o desenrolar dos fatos. No final, concluiu:
	No nego que tive intenes de me relacionar com ela. Eu estava muito triste e deprimido. Achei que um romance inconseqente, com uma mulher interessante, me ajudaria a esquecer voc... Ou ao menos a reerguer meu ego, que ficou literalmente destrudo depois que rompemos.
Daniele reagiu surpresa diante daquela declarao. No sabia que era uma pessoa to querida assim para Matthew... Na verdade, durante os anos de namoro, ela sempre tivera a impresso de que Matthew no lhe dava muita importncia... De que aceitava a relao de ambos com certa condescendncia, como algo corriqueiro, mas no essencialmente necessrio a sua vida.
	Acontece que Elizabeth estava passando por um problema semelhante ao meu  Matthew prosseguiu.  Ou seja: ela tambm sofria por amor... E logo de incio descobrimos que seria tolice fingir que estvamos apaixonados um pelo outro, quando na verdade nossos coraes j tinham donos... Assim, principiamos uma amizade slida, bem mais preciosa do que um romance fortuito, no qual tentaramos nos enganar tolamente. Foi assim  ele finalizou, com um suspiro.
Daniele continuava mantendo uma expresso confusa nos olhos verdes e expressivos. Por fim, indagou:
	Voc... Est falando a verdade?
	Por que eu mentiria para voc, se no tenho o menor motivo para tanto?  ele retrucou.
Alvio. Era essa a palavra ideal para definir o que Daniele sentia, naquele momento. E sua voz soou infinitamente suave, ao dizer:
	Agradeo por ter me contado sobre isso, Matthew.
	Achei que era melhor esclarecer de vez este assunto, j que ele nos causou uma boa dose de constrangimento.
Um silncio denso? carregado de significados, caiu entre ambos. L fora os pssaros cantavam, como se saudassem a bela tarde de vero.
	Agora  minha vez de perguntar.  Matthew retomou a conversa.  Posso?
	Sim.
Ele hesitou, procurando as palavras adequadas para abordar a dvida que tanto o atormentara, nos ltimos meses. Durante os vrios anos de namoro com Daniele, ela jamais lhe permitira a intimidade total. Teria agido assim com Roger Grant, tambm? Era isso que Matthew queria saber:
	Voc... Bem, no  preciso responder se no quiser, mas...
	Pergunte de uma vez, Matthew  ela o encorajou.
	Certo  ele aquiesceu e indagou de um s flego:  Voc se entregou a Roger Grant? Quero dizer...
	Sei muito bem o que voc quer dizer.
Ele esperava que Daniele enrubescesse mas, ao contrrio, ela reagiu com total simplicidade ao responder:
	Claro que no.
	Por que claro?  Matthew insistiu.
	Porque aos vinte e seis anos ainda sou a mesma pessoa romntica, incorrigvel, que voc conheceu. Apesar de ter idade suficiente para me portar como uma mulher madura e sensata com relao ao amor, no fundo continuo sendo uma adolescente que se esqueceu de crescer.
	E o que isso tem a ver com...
	Tem que sempre sonhei em entregar-me ao homem certo, no momento certo, depois do casamento  ela declarou.
	E Roger era o homem certo, Dani?  Matthew indagou, com a respirao suspensa.
	Talvez  ela respondeu, com ar pensativo.  Mas isso eu nunca saberei.
As palavras de Daniele atingiram Matthew como um duro golpe. Fitando-a com profunda mgoa, ele disse num tom velado:
	H no muito tempo eu fui o seu homem certo. E depois voc transferiu esse... Digamos, ttulo, para Roger Grant.
	Nunca  Daniele negou, categrica.
	Como no, se voc acabou de dizer que...
	Roger talvez fosse o homem certo  ela completou.  Mas no o ideal.
	Como?
	O homem ideal era voc, Matthew. Esse... Ttulo, como voc mesmo diz, eu jamais daria a outro homem. Afinal, a gente s ama, verdadeiramente, uma vez... Uma pessoa.
	Por favor diga isso de novo  Matthew pediu, comovido. O momento era forte demais e ele nem pensava em disfarar as emoes.
Daniele no teve tempo de repetir sua declarao. O choro de Kyle, vindo do mezanino, interrompeu a conversa. Daniele precipitou-se escadas acima enquanto Matthew, resignado, foi para a cozinha preparar uma mamadeira.
	Voc est sendo um rival e tanto, Kyle Delaney --- murmurou, enquanto abria uma lata de leite.  Esta  a segunda vez que voc me interrompe, em meio a um momento importante com Dani.  Terminou de abrir a lata e colocou duas colheres de leite em p no fundo de uma panela, que retirou do armrio.
	Agora, vejamos... Como ser que se faz um mingau? No deve ser muito complicado... Espero.

CAPITULO V

A tarde caa, numa profuso de cores que tingiam o cu e a paisagem ao redor, compondo um quadro perfeito. No vale, l embaixo, j comeava a escurecer. As colinas estendiam sua sombra sobre o rio de guas claras mas, no alto, onde Matthew passeava com Kyle, ainda havia sol.
Matthew riu ao lembrar-se de seu pequeno fracasso ao tentar fazer o mingau do beb. Depois de muito trabalho, conseguira compor uma pasta um tanto densa, excessivamente doce e... Intragvel.
Ao menos fora essa a palavra que Daniele usara, para definir o gosto do mingau. Com incrvel habilidade, ela havia preparado rapidamente uma nova mamadeira para Kyle, bem como uma sopinha de legumes.
Depois Matthew havia se oferecido para dar um passeio com o beb, a fim de que Daniele pudesse descansar.
 Nossa musa precisa de repouso, amiguinho  disse Matthew, acariciando as costinhas de Kyle e tomando a trilha de cascalho que conduzia  recepo do hotel. No bolso da camisa, ele levava as fichas que havia preenchido ainda h pouco, para entreg-las a Lorena.
Demorou cerca de dez minutos para chegar  recepo, pois andava com cuidado e muito devagar, receando escorregar. Kyle remexia-se o tempo todo em seus braos, querendo brincar. E Matthew tentava segur-lo da melhor forma possvel.
	No sabia que era to difcil carregar um beb  ele pensou, em voz alta.
	B... E  repetiu Kyle.
	Ei, voc j sabe falar, rapazinho?  Matthew sorriu, deliciado.  Ento, vamos ver se aprende a dizer o meu nome... Matthew... Matthew... Vamos l.  E pronunciou lentamente as slabas:  Matthew.
	Tio!  Kyle exclamou, com um gritinho.
	Est bom, para comear. Mas eu no sou seu tio e sim seu padrinho... Pa-dri-nho, entendeu?
	Inho!  disse o beb. E Matthew tornou a rir:
	Voc parece uma camerazinha de ecos. Por fim chegou  recepo do hotel.
Lorena o observou com um sorriso disfarado, que no passou despercebido a Matthew.
	Qual  a graa?  ele indagou, j esquecido da irritao que a garota lhe havia provocado, pouco antes.
	O modo como o senhor carrega esse beb... E engraado  Lorena comentou, com sua espontaneidade habitual.
	Posso saber por qu?
Ela continuava a sorrir:
	Perdoe a franqueza, mas o senhor me parece muito... Desajeitado.  como se estivesse carregando uma carga de dinamite prestes a explodir.
	Voc ouviu isso, Kyle?  Matthew ajeitou o beb nos braos.  Essa adorvel moa acaba de compar-lo a uma coisa terrvel.
- Os pais nunca sabem ao certo como pegar os bebs  Lorena sentenciou.
	Esse garoto no  meu filho  Matthew esclareceu. Num tom humorado, acrescentou.  E se voc estiver pensando em fazer alguma pergunta, esquea, mocinha, pois no vou responder.  Retirando as fichas do bolso, entregou-as a Lorena.  Aqui esto.
Com as faces coradas pelo embarao, a garota desculpou-se:
	Perdoe-me, dr. Taylor. Eu sou assim mesmo... Sempre perguntando o que no devia. J levei umas boas broncas do gerente do hotel por causa disso.
	E, pelo visto, no aprendeu a lio  ele brincou. Depois, num tom mais amvel, prosseguiu: - Escute, Lorena, eu sei o que voc est pensando mas, acredite, seu julgamento  totalmente incorreto. Eu at que gostaria de explicar-lhe melhor a situao, mas seria muito complicado.
Matthew ia dizer mais alguma coisa quando Kyle, jogando o corpinho para trs, quase caiu de seu colo.
	Santo Deus!  ele exclamou, assustado.  Voc quer me matar de susto, rapaz?
	Ele quer  passear um pouco, mas sozinho  disse Lorena.
	Kyle ainda no sabe andar  Matthew contraps.
	Quantos meses ele tem... Seis, sete?
	Sete.
	Ento, certamente j aprendeu a engatinhar.
	Ser?
	Dr. Taylor...  ela afirmou, num tom paciente, como se falasse com uma criana  todos os bebs dessa idade j sabem fazer isso.  Erguendo-se, Lorena contornou o balco da recepo e aproximou-se de ambos.  Com licena, doutor.  E tomou o beb nos braos. Acariciou-o por alguns instantes e colocou-o, cuidadosamente, sobre o assoalho de tbuas.  Pronto, querido, agora voc pode passear  vontade.
	Ei, voc tem jeito para lidar com crianas  Matthew comentou, surpreso.
	E no   toa. Meu pai morreu quando eu tinha doze anos de idade. Minha me precisava trabalhar e, assim, eu praticamente criei meus irmos menores.
	E quantos eram, Lorena?
	Quatro. Uns capetinhas que quase me deixavam maluca. Ah, veja s, a vai o nosso pequeno heri.
Engatinhando com agilidade pela sala, Kyle explorava o espao ao redor. Deteve-se a observar algumas revistas sobremma mesa baixa, a um canto, depois tentou levar um cinzeiro  boca, mas Matthew interveio a tempo.
	Minha nossa... Voc  rpido, mocinho.
Kyle ento voltou sua ateno para as cortinas da janela, que iam at o cho. Apoiando-se no tecido, tentou erguer-se. Matthew correu a ampar-lo:
	Ei, cuidado. Voc pode se machucar.
	Deixe-o  Lorena recomendou, pegando as fichas e guardando-as num arquivo.  Ele s est aprendendo a ficar em p.
	Mas pode cair...
	Sentado  ela completou.  E no se machucar por isso, eu garanto.
	Acho que voc tem razo.
Kyle comeou a cantarolar, numa linguagem ininteligvel, mas encantadora. Matthew observou-o com ternura. J estava se afeioando ao beb, com apenas um dia de convivncia. E podia imaginar como Da-niele se sentia. Afinal, fazia um ms que ela estava com o pequeno Kyle.
O sol se punha por trs das colinas, num espetculo grandioso. Matthew contemplou a paisagem l fora, deslumbrado com a beleza da natureza ao redor. Sentia-se mais relaxado e... Faminto. S havia tomado o caf da manh e agora j eram quase seis da tarde.
Voltando-se para Lorena, anunciou:
	Gostaria de encomendar um jantar. Poderia olhar o cardpio, por favor?
	No encontrou um, sobre a mesa da cozinha, no chal?
	Para dizer a verdade, nem me lembro de t-lo visto. Mas deve estar l, sim.
	Bem, eu tenho outro aqui comigo.  Lorena retirou um cardpio encadernado de sob o balco e ofereceu-o a Matthew.
	Obrigado.  Apoiado ao balco, comeou a ler a lista de pratos. Se bem se lembrava, Daniele adorava tudo o que fosse feito  base de frutos do mar. Assim, ele consultou a tabela de peixes e logo encontrou o que procurava: fil de salmo com ervas aromticas e molho de mariscos. Como acompanhamento, arroz branco e salada de folhas. O jantar estava decidido.  Bem, vou querer...
O som de algo se espatifando impediu que Matthew completasse a frase. Voltando-se, ele deparou com Kyle, que olhava muito seriamente para o vaso que tinha acabado de derrubar de cima de um pedestal colocado a um canto.
Lorena foi mais rpida do que Matthew. Contornando o balco com incrvel agilidade, pegou o beb nos braos e entregou-o a Matthew. Em seguida saiu por uma porta  esquerda e voltou logo depois, trazendo uma vassoura e uma p.
	Eu... Sinto muito  disse Matthew, constrangido.
	Ele no fez por querer, no , doura?  Lorena sorria para o beb. Dirigindo-se a Matthew, continuou:  A culpa foi nossa, ou melhor, minha. Eu deveria ter adivinhado que ele acabaria descobrindo esse vaso horroroso.
	Naturalmente, pretendo pagar por esse incidente  Matthew afirmou.
	Imagine! Como eu j disse, tratava-se de um vaso horrvel.  Num tom confidencial, ela acrescentou:  A sogra do gerente deu-lhe de presente, quando veio passar alguns dias aqui. Ele detestou-o e pediu-me que eu o guardasse ou desse para algum. Mas a tal senhora fez questo de coloc-lo ali no pedestal, dizendo que era uma linda pea de decorao.
	Talvez fosse valioso  Matthew ponderou.
	De jeito nenhum. A tal senhora  sovina demais para dar presentes caros.
Matthew riu:
	Lorena, algum j lhe disse que voc  impossvel?
	Sim, doutor, as pessoas vivem falando isso a meu respeito. Mas eu nem ligo...  Lorena terminou de juntar os cacos do vaso e recolheu-os na p. Tornando a sorrir para Kyle, disse:  Aposto que o gerente vai agradecer voc por esse ato de caridade, doura.  Saiu pela porta  esquerda e retornou em seguida, como se nada houvesse acontecido.  A propsito, dr. Taylor, j escolheu seu jantar?
	Sim  Matthew respondeu, enquanto o pequeno Kyle, ansioso para descobrir outras novidades, tentava escorregar de seu colo. Mas dessa vez Matthew no estava disposto a ceder.  Negativo, rapazinho. Ns j estamos de sada e eu no pretendo deixar-lhe cometer uma nova arte.  Depois de informar Lorena sobre o prato que havia escolhido e encomendar um vinho branco, ele despediu-se.  Boa noite.
	Boa noite, dr. Taylor. Ah, esqueci-me de perguntar para que horas o senhor quer o jantar.
	L pelas sete e meia, est bem?
	Certo  Lorena aquiesceu e acenou para Kyle:  Tchau, doura.
A noite j envolvia tudo em seu manto de sombras. Mas a lua quase cheia que se erguia no cu de vero era como um desafio de luz  escurido.
A trilha de cascalho, iluminada pelos primeiros sinais do luar, parecia uma faixa clara e estreita a indicar o caminho para os chals.
Matthew andava sem pressa, desfrutando a beleza ao redor, aspirando com prazer o ar perfumado da vegetao.
Havia tido a prudncia de acender os dois lampies da_varanda frontal do chal, ao sair. Agora, j podia avist-los de longe, com sua luz tnue e amarelada.
Um sentimento de paz e serenidade envolvia-o por completo. O pequeno Kyle descansava a cabe-cinha cacheada em seu ombro, como se comungasse com ele aquele momento especial.
Por um instante, Matthew permitiu-se sonhar... Como no fazia h muito tempo.
Imaginou como seria bom se ele, Kyle e Daniele formassem uma famlia. Uma verdadeira famlia, baseada em amor, respeito, confiana... Haveria palavras mais belas do que essas?
Ah, que vontade de esquecer o mundo exterior e aproveitar aquela hora feliz, Matthew pensou, com um profundo suspiro. Era maravilhoso imaginar que estava voltando para casa, para sua casa com seu filho Kyle, para encontrar-se com sua esposa Daniele McAdams Taylor...
Um sorriso estampou-se em seus lbios.
	Voc, Matthew Taylor...  disse uma voz interior, que ele no sabia ao certo de onde vinha.  Sempre lutou tanto para ser um homem prtico e bem-sucedido. Entretanto, no fundo continua a ser um romntico sonhador.
Mergulhado em sonhos e doces pensamentos, Matthew chegou ao chal. Abriu a porta, que havia deixado encostada, e chamou Daniele ao entrar.
	Chegamos  anunciou, acendendo a luz da sala, mas no viu Daniele.
A cozinha estava s escuras, bem como o mezanino. Mas Matthew viu os tnis que tinha emprestado a Daniele, colocados no primeiro degrau da escada.
	Parece que nossa musa adormeceu, Kyle  disse, baixinho, para o beb.  E ns no vamos fazer barulho, certo?
Kyle respondeu algo ininteligvel e Matthew sorriu:
	Pelo que entendi, voc concorda plenamente com minha proposta, certo?
Depositando o beb no cho, Matthew comeou a entret-lo da melhor maneira que pde. Kyle respondia aos estmulos e brincadeiras com incrvel disposio. Uma hora se passou e Matthew j estava se perguntando o que mais poderia fazer para distrair o beb, quando o viu dar um gritinho de alegria na direo do mezanino.
Voltou-se e viu Daniele descendo as escadas, com uma expresso sonolenta. Ela estava mais encantadora do que nunca. Parecia uma garotinha, pequena demais para o moletom largo e a camisa xadrez. Tinha os ps descalos e os cabelos em desalinho.
	Voc est linda  Matthew no pde deixar de dizer.
	Ora, no faa piadas  ela protestou, afastando uma mecha negra que caa-lhe sobre a testa.
	Falo srio, Dani  ele replicou, com um sorriso, atento ao pequeno Kyle, que engatinhava na direo de Daniele.
Abaixando-se, ela o tomou nos braos.
	Meu anjinho querido... Coma est voc?
	Dada  disse o beb, mergulhando o rostinho contra os seios de Daniele.
	Ei, voc j sabe dizer o nome dela!  Matthew exclamou, surpreso.  E quanto ao meu?  Dirigindo-se a Daniele, anunciou:  Eu tentei ensin-lo a falar Matthew...
	Tio!  Kyle exclamou, rindo.
	Ora, voc aprendeu mais uma palavra  disse Daniele, beijando os cabelos dourados do beb.  Ele deu muito trabalho a voc, Matthew?
	Afora ter quase me provocado uma sncope, quando tentou descer do meu colo... E ter quebrado um vaso na recepo do hotel, Kyle comportou-se como um anjo.  E num tom humorado, Matthew descreveu o que tinha acontecido. Mais uma vez, experimentou aquela sensao de paz e aconchego que s uma famlia poderia oferecer.
O som de uma batida leve na porta interrompeu a conversa.
	Deve ser o nosso jantar  disse Matthew, apressando-se a atender.
	Jantar?  Daniele repetiu, com um sorriso.  Que tima lembrana. Estou faminta, sabe?
	Eu tambm. Espero que voc aprove o prato que escolhi.
	Eu seria capaz de comer qualquer coisa, ainda que fosse uma salada de quiabos  ela gracejou.
Matthew riu. Sabia que Daniele literalmente detestava quiabos, em salada ou no.
	Vou subir com Kyle para troc-lo e voltarei num instante  ela anunciou.
Matthew assentiu com um gesto de cabea, j abrindo a porta.
O jantar transcorreu num clima alegre e festivo, com Kyle provocando risos e sustos nos adultos. Num dado momento, ele quase entornou a garrafa de vinho sobre a travessa de salmo. Felizmente Daniele agiu rpido, impedindo o desastre. E quando Matthew, depois de sorver um gole de vinho disse:
	Que buquet...  referindo-se ao aroma e sabor da bebida, Kyle mergulhou os dedinhos na taa de Daniele e levou-os  boca, dizendo:
	Qu-o-qu...
A cena provocou risadas alegres e, assim, o jantar chegou ao fim. Matthew recolheu os pratos e talheres, levando-os para a pia.
	Eu lavarei a loua  Daniele prontificou-se.
	S depois de terminarmos esse vinho maravilhoso  disse Matthew.  E sugiro que faamos isso na varanda, pois a noite est maravilhosa.
	Combinado  Daniele concordou.  D-me apenas um minuto para,buscar um casaquinho para Kyle, l em cima.
	Mas noite est quente e agradvel  Matthew protestou.
	Os bebs se resfriam com facilidade, dr. Taylor  ela explicou, com um sorriso.
	Se voc diz, quem sou eu para discordar?  Ele sorriu de volta, pegando a garrafa, que ainda estava pelo meio, e as taas.
Quando Daniele retornou, trazendo nos braos um Kyle sorridente e j agasalhado, encontrou Matthew a sua espera, na varanda. Ele ofereceu-lhe a taa e fez-lhe um sinal para que se sentasse.
Daniele acomodou-se na cadeira ao lado de Matthew, ajeitando Kyle no colo. S ento tomou a taa nas mos, murmurando um agradecimento.
	Quer ouvir um pouco de msica?  ele indagou.
	Por enquanto, prefiro ouvir o silncio  ela respondeu, docemente.
De fato, a sinfonia dos animais noturnos, aliada ao som de uma leve brisa que corria entre as rvores, era a msica perfeita para aquele momento.
E ambos ficaram assim, em silncio, contemplando a paisagem. A lua, qual um disco de prata no cu aveludado e pontilhado de estrelas, convidava  total serenidade.
Contagiado pela paz que envolvia o ambiente, Kyle falava em sua linguagem singular, como se fizesse parte da sinfonia entoada pelos bichinhos da noite.
Queria que a vida fosse sempre assim  Daniele murmurou, como se para si.
Matthew voltou-se para ela. E sua voz soou branda, ao dizer:
	Eu tambm, Dani.
	Voc j percebeu que a gente passa boa parte da vida desperdiando-a? Perseguindo objetivos mesquinhos, ou caindo nas armadilhas armadas pelas nossas prprias limitaes... E assim perdemos um tempo precioso com todas essas tolices.
	As bobagens que cometemos fazem parte do nosso aprendizado, para nos tornarmos melhores como indivduos.
	Sim, mas talvez estejamos fazendo tudo errado. Talvez tenhamos nascido apenas para contemplar a beleza da natureza, para compreender melhor seus mistrios.
	Talvez seja este o sentido da vida  Matthew sentenciou, com um suspiro.
	Talvez  ela repetiu, pensativa.
	O segredo seria conseguirmos organizar nossa vida de um modo que nos permitisse ter o maior contato possvel com todas as belezas que ela nos oferece.
	Voc diz coisas to bonitas, Matthew.
	Nem sempre, Dani... Em geral sou um homem taciturno e at um pouco excntrico. Mas  que neste exato momento sinto-me to feliz que...
O som da campainha do telefone, no interior do chal, interrompeu Matthew.
	Droga  ele resmungou, aborrecido.
	ga  disse Kyle. E, como os adultos rissem, repetiu:  ga... ga.
	Esquea essa palavra feia, mocinho  disse Matthew, levantando-se para atender a chamada.
	Talvez estejam ligando da cozinha, para perguntar se queremos mais alguma coisa, alm do jantar
	comentou, dirigindo-se ao aparelho e retirando o fone do gancho.  Al?

	Dr. Taylor? Aqui  Lorena. Uma senhora chamada Samantha McAdams est chamando de Woodbridge. Devo transferir a ligao?
	Sim. Diga-lhe que Daniele atender dentro de alguns instantes.  Depositando o fone ao lado do aparelho, Matthew retornou  varanda.  Dani,  sua me.
	Minha nossa!  Daniele levou a mo  testa. Eu j deveria ter ligado para ela.
	Eu ficarei com Kyle. H uma extenso no mezanino. Se voc quiser falar de l...
	No  preciso  Daniele ergueu-se e entregou-lhe o beb.  Kyle est quase dormindo.
	Certo.
Daniele entrou na sala e atendeu ao telefone, colocado num console ao lado de uma cadeira.
	Mame?
	Filha!  A voz de Samantha soava ansiosa. Graas a Deus eu a encontrei.
	Desculpe, mame. Eu pretendia lhe telefonar antes, mas acabei esquecendo. O dia de hoje foi to difcil... To atribulado.  Daniele fez uma pausa.
	Bem, como foi que voc me achou aqui?
	Eu a estou procurando h horas. Liguei para todos os lugares onde achei que voc poderia estar. Depois, peguei o catlogo telefnico e comecei a telefonar para os hotis. J chequei todos os que existem entre Woodbridge e Wayne. E depois resolvi ligar para os da regio de Bloomington.
	Oh, eu sinto muito por ter lhe dado todo esse trabalho, mame.
	Imagino que sim, minha filha.
	Voc deve estar furiosa comigo, no ?
	Creio que voc teve suas razes para agir daquele modo maluco, fugindo em meio a sua cerimnia de casamento...  Havia mais compreenso do que censura na voz de Samantha McAdams.  Apenas, acho que voc deveria ter pensado melhor, antes... Isso teria nos poupado uma srie de aborrecimentos.
	Eu deveria ter rompido com Roger Grant, no momento em que ele me proibiu de adotar Kyle.
	A propsito, como est ele?
	Muito bem.
	E voc, como est?
	Envergonhada por no ter tido coragem de enfrentar Roger h mais tempo e por haver causado um escndalo que, a essa altura, deve ser o principal assunto da cidade. 
	Claro. Mas, para dizer a verdade, eu no me importo muito com isso. Fofoca  uma coisa lamentvel, que no merece o menor respeito. O que realmente me preocupa  o caso de Kyle. A famlia Delaney vai lutar por ele, como voc j deve saber.  Samantha pronunciou essas ltimas palavras num tom carregado de mgoa. E acrescentou:  Diga a Matthew Taylor que estou muito magoada com ele, por ter mentido para mim.
Daniele no respondeu. E Samantha prosseguiu:
	Quando liguei a para o Green Place perguntando se seu nome constava do registro de hspedes, a recepcionista me informou que sim, que Daniele McAdams e o dr. Matthew Taylor haviam chegado esta tarde e ocupavam o chal nmero 3.
	Oh, mame...  Daniele quis dizer algo, mas Samantha a interrompeu.
	Da conclu que Matthew mentiu para mim. E isso me deixou muito ofendida, sabe? Nunca pensei que Matthew fosse capaz de me enganar, sobretudo num momento em que eu estava to aflita.
	Mame, se voc tem de culpar algum, este algum sou eu  Daniele afirmou, pesarosa. E confessou.  Fui eu quem pedi a Matthew para no lhe contar que eu estava l.
	E por que fez isso, filha?  Samantha indagou, chocada.  Ser que voc no imaginava o quanto eu estava ansiosa de saber do seu paradeiro?
	Sim, mame, eu podia supor como voc se sentia. Mas naquela hora eu s conseguia pensar em mim e Kyle... Tinha medo de que Roger me descobrisse, estava totalmente em pnico, impossibilitada de raciocinar com clareza. Sei que fui egosta, mas no pude agir de outra forma. Por favor, procure entender...
Samantha ficou em silncio por alguns instantes, mas por fim cedeu:
	Est bem, filha. Vou tentar ser compreensiva.
	Voc  a melhor me do mundo  Daniele afirmou, cheia de gratido.  Lembra-se de quando eu relutei e me recusei a dizer sim, durante a cerimnia? Voc ergueu a voz em meio aos convidados e falou: "Muito bem, filha." Lembra-se disso, mame?
	Claro. Afinal, voc sabe que sempre a apoiei na deciso de adotar Kyle.
	Eu lhe sou eternamente grata por isso, mame. Acho que se voc no me apoiasse naquele momento, eu talvez no tivesse coragem para fazer o que fiz.
	O que nos pouparia do escndalo e da fria
de Roger Grant.
	A propsito, como est ele?
	Eu o vi falando com o juiz, mas depois ele desapareceu. Nunca simpatizei muito com Roger, mas confesso que senti pena dele.
	E a culpa  toda minha  Daniele concluiu, como que para si.  Vou pedir-lhe desculpas, assim que retornar a Woodbridge.  o mnimo que posso fazer.
	Creio que sim, filha. A propsito, quando  que voc pensa em voltar?
	Talvez na segunda-feira. Na verdade, eu gostaria de ficar isolada por mais alguns dias, a fim de me reestruturar. Mas Matthew ficou de entrar em contato com as irms Delaney o mais rpido possvel, para ver se consegue firmar um acordo.
	Elas lhe deram at segunda-feira, para tentar uma soluo amigvel.
	Creio que isso no ser possvel. Ao que tudo indica, entraremos numa batalha judicial pela posse de Kyle. Mas confio em Matthew e em sua grande capacidade para resolver este caso.
	No  preciso ser advogado para saber que as irms Delaney tm uma grande vantagem sobre voc, j que so parentes diretas de Kyle.
	Sei disso, mame. Mas Matthew me inspira muita confiana. Por isso estou com esperanas de vencer essa luta.
	E o que mais?  Samantha perguntou, sem ocultar uma ponta de ansiedade.
	No entendi o que voc disse, mame.
	O que mais Matthew lhe inspira, alm disso?
Daniele no respondeu de imediato. E Samantha prosseguiu:
	Voc continua apaixonada por ele, no ?
	Eu... Pedi a Matthew que me ajudasse apenas como amigo... E como profissional, naturalmente.
	No estou lhe perguntando o que voc disse a Matthew, mas sim como se sente em relao a ele.
	Muito confusa  Daniele respondeu, com sinceridade.  E, ao menos por enquanto, no pretendo pensar nesse assunto.
	Certo.  Samantha fez uma pausa.  Tome cuidado para no se ferir novamente, est bem? E diga a Matthew que eu o perdo pela mentira deslavada. Afinal, voc estava apontando uma arma para a cabea dele e o pobre coitado no teve outro remdio seno ceder a sua exigncia...
Daniele riu:
	Mame, voc  impagvel.
	Sou apenas uma mulher experiente. E no quero ver minha filha sofrendo de novo. Portanto, trate de se cuidar. Se pretende retomar a relao com Matthew, faa-o de um modo sensato, para no se magoar.
	Obrigada pelo conselho, mame. Mas, como eu j disse, no quero pensar nesse assunto agora. No momento, minha maior prioridade  Kyle.
Ignorando as palavras da filha, Samantha comentou:
	Ora, que bobagem acabo de falar!
	Como assim, mame?
	Estou aconselhando-a a ser sensata... Mas como  que se faz isso quando o assunto ... Amorl?
	Boa pergunta, mame...  Daniele retrucou, com um suspiro.
	Bem, eu vou desligar agora. Estou exausta e felizmente poderei descansar um pouco, sabendo que voc est bem.
	Perdoe-me mais uma vez pela aflio que lhe causei.
	Me perdoa tudo, querida  Samantha respondeu, num tom de carinhosa censura.  D um beijo em Kyle por mim.
	Eu darei.
	E um abrao para Matthew Taylor, embora eu ainda no o tenha perdoado totalmente.  Havia um misto de divertimento e ironia na voz de Samantha.  Para voc, a minha bno, filha.
	Eu te amo, mame. Tenha uma boa-noite.  Daniele desligou.

CAPITULO VI

Daniele, Matthew e o pequeno Kyle deixaram o Green Place na segunda-feira, depois de passarem um domingo agradvel, como uma verdadeira famlia.
Eram sete horas da manh quando os trs partiram, no Range Rover de Matthew.
Daniele estava apreensiva e no era  toa. Podia imaginar o que a aguardava em Woodbridge: as perguntas dos amigos, a sensao de ser alvo de fofocas, o centro de um escndalo que traria srias repercusses.
Entretanto, ela sabia que precisava retornar  cidade. Matthew havia lhe explicado, detalhadamente, o quanto isso seria importante durante o processo judicial pela guarda de Kyle. Se ela no voltasse a Woodbridge, as irms Delaney poderiam acus-la de seqestro. Mas se permanecesse na cidade, mostrando que no tinha nada a esconder, bem... Ningum poderia acus-la de nada, exceto de ainda manter Kyle consigo, depois de prometer entreg-lo aos Delaney. Mas essa questo seria contornada, no tribunal. O essencial era livrar-se da acusao de crime.
Matthew dirigia em silncio e parecia imerso em profundos pensamentos. Na verdade, estava checando o plano de ao que havia traado, para dar incio ao processo. Pela primeira vez em sua vida profissional, ele cogitava sobre a possibilidade de uma derrota. Afinal, os Delaney eram uma famlia rica e, Jonathan Delaney, um homem muito poderoso. Um profundo suspiro brotou do peito de Matthew e ele recostou-se no assento, procurando relaxar. Mas suas mos seguravam o volante com fora, denunciando a tenso que o invadia. At o presente momento, ele sempre se sentira confiante como advogado. Quando entrava num caso, era para vencer. Agora, no entanto, sua confiana estava seriamente abalada.
	O que voc pretende fazer hoje?  Daniele indagou, interrompendo-lhe os pensamentos.
	Em primeiro lugar, vou deix-la em sua casa, com Kyle. Depois passarei pelo meu escritrio e farei alguns telefonemas. A primeira providncia ser ligar para o Alaska e tentar conseguir uma cpia do testamento de Bill. Em seguida ligarei para as irms Delaney e marcarei um encontro.
	Eu irei com voc  Daniele prontificou-se.
	No creio que seja uma boa idia.
	Por que no?
	Porque o clima entre voc e as Delaney podem ficar muito tenso.
	Bem, se elas forem grosseiras comigo, acabarei lhes dizendo umas boas verdades.
	Este  o problema  Matthew afirmou, pen-sativo.  Qualquer coisa que diga poder ser usada contra voc, no processo.
	Entendo  Daniele assentiu, desanimada.  Puxa, eu queria tanto fazer alguma coisa para ajudar, Matthew.
	Trate de se manter tranqila e forte, est bem?  ele recomendou, num tom carinhoso.  Entrarei em contato com voc assim que tiver qualquer novidade sobre o caso.
	Certo  ela recostou-se no assento, aconchegando Kyle nos braos.  Ns vamos tentar nos manter calmos, no , meu anjinho?
O beb fitou-a com seus olhos azuis e sorriu, como se quisesse dar-lhe um pouco de confiana naquele momento difcil.
O resto da viagem transcorreu em silncio, exceto por alguns poucos comentrios sobre o dia, que prometia ser quente, ou sobre o movimento mais intenso da rodovia, naquela segunda-feira.
Daniele sentiu-se ainda mais tensa quando avistou os vastos campos de cereais da zona rural de Woodbridge.
	Estamos chegando  ela murmurou, enrijecendo-se no banco.
	Voc bem que gostaria de ter ficado no Green Place por mais alguns dias, no ?
	Sim...  ela confessou.  Aquele lugar  lindo. L, eu conseguiria me reestruturar. Alis,  impossvel ser infeliz em meio quelas colinas verdejantes.
	Para ser franco, eu tambm adoraria prolongar a estada no Green Place. Mas de que adiantaria? H certas coisas que no podem ser adiadas.
	Tem razo...  Daniele ponderou, pensativa. Imagina o que as irms Delaney fariam, se eu desaparecesse pelo resto da semana.
	Nem  preciso imaginar  Matthew retrucou.
	Sei muito bem as providncias que tomariam... E ns no teramos a menor chance.
Daniele sorriu:
	Estou agindo como uma criana mimada e medrosa, relutando em enfrentar a realidade.  melhor tratar de me fortalecer, como voc mesmo recomendou.
	Assim  que se fala, Dani  Matthew aprovou, com um sorriso.
	Obrigada por tudo o que est fazendo por mim  ela agradeceu, aps um longo momento. Abraando Kyle com fora, corrigiu-se:  Por ns. Acho que nunca poderemos lhe retribuir esse favor, Matthew. Voc est sendo simplesmente maravilhoso conosco.
	Vamos fazer um acordo?  ele props, saindo da rodovia e entrando no permetro urbano de Woodbridge.
	Qual?
	Voc no dir mais a palavra obrigada, daqui at o final do caso de Kyle... Certo?
	Por qu?
	E que fico embaraado com esses elogios  ele confidenciou, com um meio sorriso.  No sei ao certo o que responder...
Daniele riu:
	Ora, eu no sabia que voc era tmido, Matthew Taylor.
	H vrias coisas a meu respeito que voc desconhece, Daniele McAdams  ele afirmou, num tom subitamente srio.  Aprendi muito nos ltimos meses de solido e sofrimento.
	Matthew...  Num impulso, ela acariciou-lhe o rosto, como fazia antes, quando ambos eram namorados.
Ele voltou-se para fit-la por um instante, com uma expresso terna.
	"Seu" maluco!  gritou o motorista de um reluzente Mitsubishi, freando bruscamente no cruzamento.  Voc no enxerga, ?
Piscando os olhos, Matthew observou o sinal vermelho que havia ultrapassado, no exato momento em que voltara-se para Daniele.
	Desculpe  ela disse, constrangida, com as faces coradas pelo embarao.  Eu... Quase causei um desastre.
	A sim, seramos o assunto principal de Woodbridge pelos prximos sculos...  Matthew interrompeu-se ao ver o motorista do Mitsubishi, que agora o ultrapassava, fazendo-lhe sinal para parar.
	O que ser que ele quer, agora?
	Voc o conhece?  Daniele indagou.
	No... Mas j vi aquele carro em algum lugar.
	E o tipo de veculo que no se pode deixar de notar  Daniele comentou, numa tentativa de fazer humor.
De fato, o Mitsubishi modelo esportivo, vermelho, era de chamar a ateno.
	Agora me lembro  disse Matthew, observando o motorista que acabava de saltar do Mitsubishi e caminhava em sua direo.
	Quem  ele?  Daniele perguntou, fitando com estranheza o homem baixo e atarracado, ainda jovem mas parecendo incrivelmente velho devido ao modo como andava, encurvado, com os ombros erguidos como se quisessem tocar as orelhas.
	Perry Waltman. Chegou recentemente de Ohio, para trabalhar como advogado em nossa comarca.
	Foi s o que Matthew pde esclarecer, antes de ser cumprimentado com efuso pelo jovem jurista, num tom exageradamente solcito:
	Dr. Taylor, como vai?
	Assustando os motoristas sensatos de nossa querida Woodbridge, como voc pde ver  Matthew respondeu, com humor.
	Oh, queira me perdoar, doutor. Eu fui muito grosseiro e...
	Nada disso, Perry  Matthew o interrompeu. Se algum aqui deve pedir desculpas, esse algum sou eu. Portanto... Desculpe, amigo.
Perry Waltman sorriu:
	Ora, dr. Taylor, o senhor s estava distrado.
	O que por sinal  imperdovel  Matthew perguntou.  A propsito, acho que j lhe disse para no me chamar de doutor, Perry. Afinal, somos ambos advogados.
O outro aquiesceu com um largo sorriso:
	Oh, est bem, Matthew.
	Ma-tiol  gritou Kyle, batendo palminhas. Vinha fazendo isso desde o dia anterior. Bastava-lhe ouvir algum pronunciar o nome de Matthew, para repeti-lo, a sua maneira.  Ma-Tiol  disse Kyle, novamente.
	Este  o herdeiro?  perguntou Perry Waltman, sorrindo na direo de Kyle.
	No  Matthew respondeu, com simplicidade.
	Seu nome  Kyle Delaney e esta  Daniele McAdams.
	Ah, muito prazer.  Se Perry sentiu-se constrangido com sua pequena gafe, no demonstrou.
Daniele respondeu ao cumprimento num tom polido. Matthew despediu-se:
	Bem, foi um prazer rev-lo, Perry. Tenha um bom dia.
	O mesmo para o senhor, quero dizer, para voc. A propsito, deveramos almoar juntos algum dia desses. Se voc tiver tempo, naturalmente.
	Oh, claro  Matthew aquiesceu, com um meio sorriso.  Bem, at qualquer hora.
	At...
Matthew esperou que Perry entrasse em seu Mitsubishi e partisse, desaparecendo depois de uma curva, no final de uma larga avenida. S ento acionou o Range Rover e retomou o trajeto.
	Que homem engraado  Daniele comentou.  Pelo visto, ele o admira muito, hein?
Matthew franziu a testa, numa expresso de dvida.
	No creio que admirao seja a palavra correta para definir o modo como Perry Waltman me trata.
	Bem, ele s faltou beijar os seus ps.

	E isso se chama subservincia... No gosto quando as pessoas agem assim, comigo. A subservincia  algo perigoso, que pode se transformar em desprezo de uma hora para a outra.
	Por que diz isso?
	Porque no se trata de uma admirao sincera, mas sim de um obsessivo desejo de agradar, a qualquer custo. Esse Perry Waltman, por exemplo... Ele chegou h pouco tempo na cidade e est ansioso para se entrosar com os colegas.
	Ora, isso  muito natural  Daniele comentou.
	Sim. Mas o modo como ele tenta se impor, lutando para ser aceito... S consegue afastar as pessoas, em vez de atra-las.
	De fato, ele quer ser to gentil que acaba se portando de maneira inconveniente.
	Exato  Matthew concordou.  Mas o que realmente me^ causa antipatia em Perry  outra coisa.
	Qual?
	Ele no me olha nos olhos.
	Talvez aja assim por timidez.
	Tomara que voc tenha razo, Dani. Bem, chegamos.  Matthew estacionou em frente a um sobrado, num antigo bairro residencial da cidade.  O jardim continua lindo  comentou, apontando as rosas de vrias cores que compunham um quadro maravilhoso, ladeando o caminho de pedras que conduzia  entrada da casa.
	Mame  uma jardineira de primeira linha  Daniele respondeu, sorrindo.  As flores a amam.
	E com toda razo, pois Samantha  uma pessoa maravilhosa.  Matthew desceu do veculo e abriu a porta para Daniele saltar, com Kyle nos braos.
	Obrigada  ela agradeceu.
Ele riu:
	Puxa, esta  a primeira vez que voc me permite agir como um cavalheiro.
	Mas voc  um cavalheiro, dr. Taylor  ela retrucou, com humor.
	Acontece que voc  sempre mais rpida do que eu no gatilho... Quero dizer, na porta do carro.
	E com uma reverncia cmica, acrescentou:  Queira descer, milady.
Ela riu e convidou:
	Vamos entrar, Matthew?
	No, obrigado.  Ele retirou uma sacola do bagageiro, contendo o vestido de noiva de Daniele, e depositou-a junto  cerca baixa que circundava o sobrado. Colocou a baby-bag ao lado, bem como uma caixa de papelo, com compras que havia feito para Kyle: fraldas descartveis, laticnios e alguns objetos de toalete.  Bem, acho que est tudo a.
	Tem certeza de que no quer mesmo entrar?Daniele insistiu.
	Realmente no  Matthew replicou, consultando o relgio. Eram quase oito e meia e ele precisava ir para o escritrio.  D um abrao em sua me por mim.
	Est com medo de fazer isso pessoalmente, seu grande mentiroso?
	Ttal  exclamou Kyle ao ver Samantha McAdams na janela do andar trreo do sobrado.
	Ei, como vai, meu gatinho?  Samantha riu para o beb.  Eu estava morrendo de saudades, querido.  Olhando na direo de Daniele, mirou-a de cima a baixo, que continuava usando um moletom e camisa emprestados por Matthew.  Filha, onde voc conseguiu esses trajes to finos e elegantes?
Daniele riu:
	Ei, voc acordou com timo humor, mame.
	O que h de errado com minhas roupas, sra. McAdams?  Matthew retrucou, quase ao mesmo tempo, num tom divertido.
	Bem, vocs entram ou eu saio?  Samantha perguntou, com um sorriso. Era uma mulher altiva, de belos traos como os de Daniele. Usava os cabelos grisalhos presos num coque.
Matthew aproximou-se pelo caminho de pedras, trazendo nos olhos uma expresso afetuosa.
	Senhora...  E tomou a mo de Samantha entre as suas.   um prazer rev-la.
	Acho que posso dizer o mesmo, apesar de ainda estar querendo torcer-lhe as orelhas pela mentira que voc me contou...  ela o repreendia, mas seu olhar carinhoso desmentia as palavras.
	Perdoe-me. Daniele explicou-lhe toda a situao, no sbado  noite, no foi?
	Sim  Samantha aquiesceu.  Entre um pouco, Matthew. Faz tempo que no conversamos.
	Infelizmente, no posso. Estou atrasado para entrar no escritrio  ele justificou-se.  Mas agradeo o convite, de corao.
	Sou eu quem deve agradec-lo por ter apoiado minha filha, num momento difcil.
	Ora...  Matthew fitou-a com ar de embarao.
	Ele no suporta elogios ou agradecimentos, mame  disse Daniele, aproximando-se com ar zom-beteiro. Depois, num tom mais srio, acrescentou:
	Se voc tem de ir, v, Matthew. Eu j o perturbei um bocado no final de semana e no quero atrapalhado mais.
	Est bem.  Ele sorriu, fitando-a com intensidade.  Entrarei em contato assim que tiver alguma notcia sobre o caso de Kyle. Talvez lhe telefone ainda hoje.
	Certo. Ficarei aguardando. Tenha um bom dia, Matthew.
	O mesmo para voc.  Ele depositou um beijo na testa do pequeno Kyle e despediu-se de Samantha McAdams. Caminhou na direo de Range Rover e, antes de entrar, voltou-se para acenar mais uma vez. Ento partiu.
	Voc costumava ter uma ameaa de enfarto cada vez que Matthew dizia que precisava ir trabalhar  Samantha comentou, um tanto surpresa.  Entretanto, acaba de mostrar-se to compreensiva...
	Eu mudei, mame.  Foi a resposta simples de Daniele, que tinha um brilho diferente nos olhos.
	Hum... Sinto cheiro de paixo no ar  Samantha provocou-a.
	Ora, no diga bobagens.
	Ser que estou sendo realmente boba?  Samantha bateu palmas e estendeu os braos para Kyle.
	Voc acha, meu bem, que vov Sam est enganada?
Contendo um sorriso, Daniele entregou-lhe o beb e voltou  cerca para pegar as sacolas.
Matthew mal teve tempo de tomar um banho, em casa, onde tomou um rpido caf da manh, antes de seguir para o escritrio.
Havia uma srie de recados na secretria eletrnica. Matthew ouviu-os e, com a ajuda da sra. Emily Foster, sua secretria, respondeu-os devidamente.
Eram quase onze horas quando ele por fim ficou livre para tratar do caso de Kyle Delaney. Escolheu uma pasta azul, nova, na estante, e colocou-lhe uma etiqueta com o nome de Kyle. Em seguida registrou o caso no micro-computador, situado ao lado de sua mesa de trabalho.
S ento Matthew lembrou-se de que havia se esquecido de pegar, com Daniele, o nmero do telefone das irms Delaney. Tampouco lhe perguntara se Mary-Ann, a amiga de Bill e Karen que trouxera Kyle do Alaska, deixara seu endereo ou telefone. Alm do mais ele precisava entrar em contato, tambm, com o cartrio de registros e documentos da cidade onde Bill e Karen haviam morado. Pois, ao que tudo indicava, era l que se encontrava o testamento de Bill... Se  que ele de fato o havia lavrado num cartrio. E Matthew esperava, sinceramente, que sim. Caso contrrio, a famlia Delaney ganharia a guarda de Kyle. E Daniele no teria a menor chance de ficar com o beb.
Depois de anotar esses itens num bloco de rascunho, Matthew-chamou a secretria pelo intercomunicador.
	Sra. Foster, ser que pode vir at aqui por um instante?
	J estou indo, dr. Taylor.
A secretria, uma mulher de meia idade, magra e elegante, bateu  porta e entrou na sala de Matthew.
	Pois no, doutor?
	Cuide disso, por favor.  urgente.
	Certo  a sra. Emily Foster assentiu, j de sada.
	Acha que pode me conseguir esses dados para depois do almoo?
	Vou tentar.
	No tente, sra. Foster... Faa.
Ela sorriu:
	O senhor conhece o ditado: "o impossvel, fazemos na hora... Mas os milagres demoram um pouquinho mais"?
	Digamos... Cinco minutos?  Matthew gracejou e agradeceu.  Obrigado, sra. Foster. No se esquea de que tenho urgncia, nesse caso.
	Est bem.  A secretria saiu.
Havia uma grande estante, na parede  direita de Matthew, contendo livros jurdicos. Correndo os dedos pelas lombadas dos volumes ricamente encadernados, ele retirou o cdigo civil e um outro livro, escrito por um eminente jurista, especialista em casos de adoo.
Depositou-os sobre a mesa e sentou-se na cadeira giratria. Abriu o cdigo civil e comeou a estudar os artigos referentes  adoo de crianas.
Concentrou-se tanto no trabalho, que nem viu o tempo passar. O rudo do intercomunicador o fez interromper-se. Estendendo a mo, com os olhos ainda fixos no livro, Matthew atendeu:
	O que foi, sra. Foster?
	Dr. Taylor, o senhor no vai almoar?
	Ora, que pergunta...  Matthew surpreendeu-se.  A senhora sabe muito bem que s costumo almoar por volta de uma hora.
	J so duas e quinze, doutor.
	Como?  Matthew indagou, espantado.
	O senhor sempre se esquece do tempo, quando comea um novo caso  a secretria comentou.
	E o pior  que a senhora acaba sendo prejudicada com essa minha mania. Aposto que ainda no foi almoar, no  mesmo, sra. Foster?
	Acertou, dr. Taylor.
	Oh, eu sinto muito. Por que no me chamou antes, senhora?
	No queria perturbar sua concentrao. Bem, estou pensando em encomendar um almoo para o senhor. O que acha?
	E uma boa idia. E encomende um tambm para a senhora, se quiser.
	De modo algum, dr. Taylor. Eu sempre almoo no Babilnia, especializado em cozinha vegetariana.
	Ento v comer e, na volta, traga-me qualquer coisa l do Babilnia.
	O que o senhor gostaria?
	Ora, o que a senhora escolher estar bem.
	Certo. At logo mais, dr. Taylor. Ah, antes que eu me esquea, estou aguardando um telefonema do Alaska.
	Quer dizer que conseguiu...?
	A telefonista de l ficou de entrar em contato com o registro civil da cidade onde Karen e Bill Delaney residiam... Deixe-me ver o nome... Ah, sim, aqui est. Saint-Antoine.  este o nome.
	Obrigado, sra. Foster. E quanto aos outros itens que lhe pedi?
	J consegui todos, exceto o endereo e telefone de Mary-Ann. Est sendo muito difcil localiz-la, j que no temos o seu sobrenome.
	A senhora ligou para Daniele McAdams?
	Sim. Mas a srta. McAdams me informou que no tem o contato de Mary-Ann.
	Esquea. Se conseguirmos o nmero do cartrio de Saint-Antoine, bem como o das irms Delaney...
	Este eu j tenho.
	E por que no me disse antes, criatura?
	Ora, pensei que seria mais apropriado levar-lhe todos os dados de uma vez. Mas se o senhor quiser que eu ligue agora para as irms Delaney...
	No, sra. Foster. V almoar. D-me o telefone que eu mesmo farei a ligao.
	Anote, por favor.  A secretria ditou o nmero e em seguida acrescentou:  Se ligarem do Alaska...
	Eu atenderei, fique tranqila.
Mas a resposta que Matthew esperava s chegou no final da tarde. Depois de conversar com o tabelio do cartrio de registros de Saint-Antoine, ele enfim conseguiu a resposta que tanto esperava: de fato, Bill Delaney havia deixado um testamento lavrado ali, h cerca de cinco meses.
	Ser que o senhor poderia me enviar uma cpia desse documento, atravs do fax?  Matthew pediu.  Trata-se de um caso urgente.
	Verei o que posso fazer, dr. Taylor  o tabelio respondeu, num tom solcito.
	Eu lhe agradeo muito. Ficarei aqui, aguardando.
	Certo, doutor. Nosso fax est com problemas, de modo que no sei se conseguirei mandar-lhe o documento ainda hoje. Seno, enviarei pelo correio, amanh cedo.
"Oh, no", Matthew pensou, aborrecido. Segundo o prprio Bill lhe contara, por ocasio do batizado de Kyle, o servio de correio de Saint-Antoine era muito precrio. As cartas levavam pelo menos cinco dias teis para chegar.
"Essa demora", Matthew pensou, "na atual circunstncia, poder ser fatal."
Felizmente, por volta de seis e quinze da tarde, o fax de Matthew deu sinal de estar recebendo uma mensagem. Com o corao aos saltos, ele leu o incio:
"Dr. Matthew Taylor, na cidade de Woodbridge, Estado de Indiana... Aqui vai o documento solicitado. Espero que seja transmitido com nitidez, pois nosso fax, alm de antiquado..."
 timo!  Matthew exclamou, interrompendo a leitura da mensagem.
O dia que agora se findava havia sido bastante produtivo... Exceto pelo fato dele no ter conseguido contato com as irms Delaney. A governanta, que havia atendido a ligao de Matthew por duas vezes, informara-o de que tanto Sarah quanto Vernica tinham ido passar o dia fora e s regressariam  noite.
Matthew tinha deixado um re.cado, bem como o nmero de seu telefone celular, solicitando que lhe telefonassem o mais depressa possvel. Mas at ento no recebera resposta.
A transmisso do fax enviado de Saint-Antoine, no Alaska, chegou ao final. Matthew pegou o documento, tomado por uma intensa emoo. Ali estavam os ltimos desejos de seu querido amigo Bill... E por que Bill, sendo to jovem, resolvera fazer seu testamento? Teria intudo a tragdia que em pouco o levaria para sempre desse mundo?
Matthew meneou a cabea, afastando aquele pensamento sombrio. Perder-se em cogitaes sobre a morte de Bill e Karen de nada adiantaria, agora. O melhor que tinha a fazer era cumprir, da melhor maneira possvel, a vontade de ambos. E se essa vontade determinava que Daniele adotasse Kyle, bem, ele no pouparia esforos para que isso acontecesse. O som do intercomunicador fez com que Matthew interrompesse a leitura.
	Pois no, sra. Foster?  ele indagou, acionando o aparelho.
	O juiz Evan Harcourt est na linha A, doutor  a secretria informou.
Matthew espantou-se. O juiz Evan Harcourt era um dos juristas mais admirveis que j conhecera. Famoso por seu senso de justia e seu carter ntegro, Evan Harcourt tivera seu nome nos jornais e principais meios de comunicao do pas, ao julgar casos importantes e polmicos.
Aps ter feito uma denncia sobre um caso de corrupo numa corte de Washington, o juiz perdera seu cargo, devido a uma srie de presses. Por fim, acabara se recolhendo a Woodbridge, sua cidade natal, onde fora muito bem recebido. J fazia quase dois anos que Evan Harcourt estava na cidade.
Alto, negro, os cabelos j grisalhos devido aos seus quase setenta anos de idade, o juiz dirigia o tribunal de Woodbridge de maneira brilhante e justa.
Matthew j tivera a oportunidade, que ele considerava uma verdadeira honra, de participar de algumas sesses do tribunal presididas por Evan Harcourt. Alm de admirao, nutria grande simpatia por aquele homem carismtico e bondoso.
Evan Harcourt, por sua vez, tratava-o com deferncia e cordialidade. E Matthew sentia-se contente por isso. Sabia que havia poucos homens como o juiz Harcourt, no mundo. Homens  moda antiga, para quem a honra valia mais do que os interesses e, a justia, mais do que a ambio...
	Transfira a ligao, por favor  Matthew ordenou  secretria, perguntando-se o que, exatamente, levara Evan Harcourt a procur-lo quela hora.
	Pois no, doutor.
	Matthew Taylor?  a voz do juiz Harcourt era grave, levemente anasalada.
	Pois no, Excelncia.
	Ora, no me chame assim  Evan Harcourt advertiu-o, num tom amvel.  Afinal, no estamos na corte.
	Perdo, juiz.  o costume...
	Bem, voc deve estar se perguntando o que me levou a perturb-lo, a em seu escritrio, a essa hora...
	Perturbar-me?  Matthew repetiu, num tom cordial.  De modo algum, juiz. Estou a sua disposio. Do que se trata?
	De um processo complicado. Poderamos conversar pessoalmente?

CAPITULO VII

	Minha filha, trate de se acalmar, sim?  Samantha repreendeu Daniele, que caminhava de um lado a outro da sala, tomada por uma terrvel tenso.  Voc est comeando a me deixar nervosa...
O pequeno Kyle dormia no quarto de Daniele, em seu bercinho de cerejeira, comprado h cerca de trs semanas.
Na sala, Daniele e, Samantha aguardavam uma ligao de Matthew.
	Ele podia ter telefonado, ao menos para me colocar a par das novidades.
	Talvez Matthew ainda no tenha nada a dizer sobre o caso  Samantha ponderou.
	Sei muito bem o que aconteceu  Daniele retrucou, irritada.  Matthew deve ter se esquecido do caso de Kyle. Mergulhou no trabalho e nem sequer procurou as irms Delaney, para tentar conseguir um acordo.
	Voc est sendo precipitada, em seu julgamento. Matthew no prometeu que faria de tudo para ajud-la?
	Sim, mas ento por que no me d notcias?
Samantha meneou a cabea e sorriu:
	Tenho certeza de que logo ele entrar em contato com voc. Agora pare de se torturar e venha comer.
	No tenho apetite, mame.
	Voc precisa estar forte, para enfrentar os problemas que viro.  Tomando a mo da filha, Samantha conduziu-a  copa, onde a mesa j estava posta.  Venha... De nada adianta ficar assim. Alm do mais, fiz seu prato predileto e no pretendo jantar sozinha.
	Est bem, mame  Daniele cedeu, desanimada.
	Fil de peixe  milanesa, com maionese... O que me diz?
Daniele sorriu, mas no ntimo estava  beira do desespero. O silncio de Matthew a havia irado do srio.
A apenas poucos quarteires dali, Matthew e D juiz Harcourt conversavam longamente sobre o casa de Kyle Delaney.
Matthew havia ido  residncia do juiz, um casaro antigo e bem conservado, onde ele nascera e fora criado.
Sentado diante da mesa de Evan Harcourt, em seu escritrio particular, Matthew ouv;a atentamente as palavras daquele homem sbio e justo.
	Recebi um telefonema de Jonathan Delaney, o famoso empresrio, no final da tarde de hoje  dizia o juiz.  No gosto dos modos pedantes daquele homem. Ele parece julgar-se superior aos outros seres humanos, apenas porque possui muito dinheiro e poder.
Matthew assentiu com um gesto de cabea. Em sua pasta estava a cpia do testamento de Bill, que ele havia lido ainda h pouco, antes de sair do escritrio.
	Jonathan informou-me de que o juiz de menores da comarca de Ohio, onde ele reside com suas duas netas, enviar um documento amanh  corte de nossa cidade, ordenando a entrega de um beb chamado Kyle Delaney  famlia.
	O beb  seu bisneto, filho do falecido Bill Delaney, que Jonathan deserdou h algum tempo, alegando um motivo absurdo.  E Matthew esclareceu:  Bill se casou com uma moa de classe social mais baixa.
	Uma oportunista que s estava interessada no dinheiro do ingnuo e romntico Bill  o juiz sentenciou.  Foram essas as palavras que Jonathan usou, para definir a esposa do rapaz.
	Espero que o senhor no tenha acreditado nessa acusao  Matthew comentou, revoltado.  Karen amava Bill. Estava interessada nele como pessoa, no em seu dinheiro. Tanto  que continuou a seu lado, mesmo depois dele ter sido deserdado pelo av.
	Vejo que voc est a par do caso  o juiz comentou, um tanto surpreso. E antes que Matthew pudesse responder, acrescentou:  Em resumo, Jonathan quer que eu acate a ordem do juiz de Ohio. Naturalmente, expliquei-lhe que esse caso deve envolver todo um processo mais longo... Mas o poderoso Jonathan ignorou minhas palavras.  Estreitando os olhos mopes por trs dos culos de lentes grossas, Evan Harcourt concluiu:  Ele teve o desplante de indagar qual seria meu preo, para encerrar o caso
o mais depressa possvel.
	No acredito!  Matthew exclamou, chocado.
O juiz sorriu, com ar compreensivo:
	J deparei com vrios homens do tipo de Jonathan, em minha carreira jurdica. Muito pacien
temente tentei explicar-lhes, tal como fiz com Jonathan hoje, que nem todos os homens esto  venda. E ouvi uma resposta bastante conhecida: "ora, meritssimo, todos os homens tm seu preo... Mais cedo ou mais tarde, eles acabam cedendo. Portanto, sejamos objetivos e tentemos selar um acordo."
	Ele bateu na porta errada, juiz Harcourt  Matthew comentou, tomado pela indignao.  Jo-nathan deveria saber que, com o senhor, qualquer tentativa de corrupo seria pura perda de tempo.
	Obrigado pela confiana, amigo.  O velho juiz suspirou, recostando-se em sua cadeira giratria. Parecia cansado e um tanto triste.  Mas vamos ao que interessa... S lhe contei sobre tudo isso para dar-lhe uma viso geral da situao. A questo  a seguinte: eu no pretendo ceder  presso de Jo-nathan. E se ele resolver processar a corte de nossa cidade, precisarei de um advogado competente como voc, como aliado.
	Creio que ele no processar a corte, mas sim a pessoa que no momento detm a guarda de Kyle Delaney, senhor  Matthew ponderou.
	E quem  essa pessoa?
	Daniele McAdams, minha cliente.  Em poucas palavras, Matthew explicou o caso.
O juiz ouviu tudo com ateno e por fim concluiu:
	Agora sim, entendo o telefonema de Jonathan Delaney.
	Ele s estava tentando abreviar as coisas, pressionando-o.
	Fez isso para poupar os aborrecimentos que um processo desse tipo certamente lhe causar. Afinal, se eu acatasse a ordem do juiz de Ohio, tudo se resolveria em questo de poucos dias.
	Mas no ser assim  Matthew sentenciou com veemncia. Abrindo a pasta, retirou a cpia do testamento de Bill e estendeu-a ao juiz.
	O que  isso?
Matthew explicou o teor do documento. Evan Harcourt meneou a cabea:
	No posso v-lo. Se voc vai trabalhar neste caso,  melhor colocar todos os documentos necessrios numa pasta e envi-los a mim, oficialmente. Entende o que quero dizer?
	Claro  Matthew aquiesceu, guardando o fax de volta na pasta.  Se eu o colocasse a par de tudo isso...
	Seria corrupo  Evan Harcourt declarou.
	Bem, fico feliz por voc estar envolvido nesse caso. No gostei do modo como Jonathan se referiu ao bisneto, quando falou comigo. Era como se o beb fosse uma coisa e no um ser humano.
	Estou surpreso com o fato de Jonathan ter se exposto desse modo  disse Matthew, pensativo.
	Afinal, segundo fui informado, ele pretendia ficar de fora, para se preservar. As irms Delaney...
	No me conte mais nada, por favor  Evan Harcourt o interrompeu.
	Est bem.  Matthew ergueu-se e estendeu a mo num cumprimento cordial.  Obrigado, juiz Harcourt. Sinto-me honrado por o senhor ter pensado em mim, para...
	Defender nossa cidade contra o poderoso Jonathan  Evan Harcourt completou.  No conheo ningum que poderia fazer isso, exceto voc.
	Agradeo mais uma vez. Boa noite, juiz Harcourt.
	Boa noite.  O velho juiz sorriu.  Venha visitar-me, qualquer dia desses... No necessariamente para falarmos dos corruptos.
	Claro.  Matthew sorriu de volta. Passava das sete e meia da noite. E Daniele devia estar ansiosa por notcias, ele pensava, enquanto manobrava o Range Rover. Cerca de cinco minutos depois, estacionava em frente ao sobrado onde Daniele morava.
Ela abriu a porta antes que Matthew tocasse a campainha.
	Estava a sua espera  disse, ansiosa.  Por que no telefonou antes? O que foi que aconteceu?
	Ei, uma pergunta de cada vez.  Ele sorriu, tentando tranqiliz-la.
	Desculpe.  Daniele suspirou, passando a mo pelos cabelos, que caam-lhe como uma cascata negra e reluzente,  altura dos ombros.  Estou to nervosa, Matthew. E pensei que voc tivesse...
	Esquecido o caso?  ele completou.
Ela aquiesceu com um gesto de cabea.
	Eu no prometi que faria de tudo que estivesse a meu alcance para ajud-la?
	Sim.  Daniele fez um gesto vago. Desculpou-se mais uma vez e convidou-o a entrar.
Ele acomodou-se numa cadeira de madeira escura, muito antiga, com estofo estampado em verde e marrom. Daniele sentou-se no sof, que tinha a mesma estampa da cadeira.
	Fale  pediu, com voz trmula de apreenso.
	Onde est sua me?  Matthew perguntou.
	Kyle estava chorando e ela foi acalm-lo.
	E como vai Kyle?
	timo, como sempre.
	Muito bem...  Matthew ficou pensativo por alguns instantes, procurando as palavras exatas para o que tinha a dizer.
	Pelo amor de Deus, no faa tanto suspense.
	Pelo amor de Deus, d-me um copo de gua  ele pediu, recorrendo ao humor para aliviar a tenso.  Estou com a garganta seca e no fao uma refeio decente h vrias horas.
	Oh, perdoe-me. Voc quer jantar, Matthew? Ou talvez tomar um lanche?
	Obrigado, mas desejo apenas um copo de gua.
	Suco de laranja no seria melhor?  ela sugeriu.
	Seria perfeito  ele aprovou, com um sorriso.
Daniele levantou-se e foi at a cozinha. Retornou logo depois, trazendo um copo de suco:
	Aqui est: sem acar, do jeito que voc gosta.
	Obrigado.  Matthew sorveu um gole.  Est delicioso.
Ela aquiesceu com um gesto de cabea e tornou a sentar-se.
Matthew abordou o assunto. Falou sobre a conversa com o juiz Evan Harcourt e a tentativa de contato com as irm Delaney, que at o momento no haviam respondido ao seu recado.
Daniele revoltou-se ao ouvir sobre o telefonema de Jonathan Delaney ao juiz. Conhecia aquele homem honrado apenas de vista, mas sabia o quanto ele era ntegro e o admirava profundamente.
Quis fazer alguns comentrios, mas absteve-se. Antes de mais nada, era preciso ouvir tudo o que Matthew tinha a dizer sobre o caso.
	Quanto ao testamento de Bill...  ele comentou a certa altura.
	No me diga que j conseguiu confirmar a existncia desse documento!?  Daniele reagiu, surpresa.
	Mais do que isso, srta. McAdams  ele sorriu, com ar modesto.
	Fale de uma vez, Matthew.
	Na verdade, tenho uma cpia do testamento acui comigo.
	Como conseguiu esse milagre?  Daniele perguntou, perplexa.
	Com um pouco de sorte e a ajuda de minha secretria  e.e respondeu, simplesmente.
	E com sua competncia admirvel  Daniele acrescentou.
Matthew pegou o documento e folheou-o:
	Quer ouvi; o trecho onde Bill se refere a Kyle?
	Claro que sim. No me faa esperar mais, Matthew.
	Bem, aqui vai...  Correndo os dedos pelo papel, ele localizou o texto que procurava.  "Eu e minha esposa Xaren quase no temos bens materiais. Moramos numa casa alugada, num agradvel bairro da cidade de Saint-Antoine, trabalhamos como professoras na escola local e ganhamos um sa-rio modesto, mas suficiente para vivermos com dignidade. Tratialhamos tambm com artesanato e esperamos conseguir participar de uma exposio a sei realizada ni capital, nos prximos meses..."
Daniele contraiu o rosto, numa expresso de dor. De fato, Bill e Karen tinham conseguido se classificar para a exposio de Arte e Artesanato a ser realizada na capital do Estado... E morreram justamente quando estavam voando para a inaugurao da exposio, cora as passagens pagas pela Secretaria de Cultura Estadual do Alesca. O avio sofrer uma pane, ma-tardo todos os passageiros e, inclusive, vrios artistas e artesos. Uma tragdia inominvel, que abalara no apenas o Estado, mas o pas.
	"Creio que meu veneravel av, Jonathan Delaney, no pode compreender meu modo de viver ou de pensar."  Matthew deu prosseguimento  leitura.  "Ele me deserdou quando resolvi desposar Karen. Foi nessa ocasio que percebi o quanto sou diferente de meu av. Minha escala de valores no servia para ele e vice-versa. Nosso choque foi terrvel. No sei se algum dia voltaremos a nos entender. E uma pena, pois Jonathan Delaney me criou desde que eu tinha dois anos de idade. Guardo, desse homem genioso e excntrico, lembranas muito belas. E quero crer que ele me ame, a sua maneira. Quanto as minhas primas Vernica e Sarah, que so bem mais velhas do que eu, quase no tenho lembranas. Elas sempre moraram longe de mim e de vov Jonathan. Faz pouco tempo que se mudaram para a manso da famlia em Ohio, onde nasci e fui criado. Quem agora estiver lendo essas palavras deve se perguntar por que motivo este testamento mais parece uma autobiografia... A explicao  muito simples: estou tehtando transmitir uma idia a respeito de minha famlia. Duas primas distantes e um homem excntrico. Essas so as nicas pessoas que ainda assinam Delaney. Quanto a mim, apesar de manter meu sobrenome, j no sou parte da famlia... No por minha vontade, mas por determinao de meu av."
Matthew fez uma pausa, para sorver mais um gole do suco de laranja. Daniele o fitava com os olhos marejados, esperando que ele desse prosseguimento  leitura.
 "No me sinto no direito de criticar Jonathan Delaney pelo que fez. Dizem que as pessoas jovens tm mania de julgar os mais velhos, e o fazem de maneira cruel. Bem, no  esta minha inteno. Mas  meu desejo criar meu filho Kyle de um modo bem mais liberal e justo. Dei-lhe o nome Delaney porque, afinal,  o meu nome. Espero poder transmitir-lhe tudo de bom que aprendi na vida e ajud-lo a defender-se dos perigos que infelizmente so muitos, nesse mundo. Este  meu objetivo e farei de tudo para cumpri-lo da melhor maneira possvel. Mas o destino s vezes nos prega peas terrveis. E  contra elas que pretendo me precaver, no momento em que escrevo este documento. Assim, especifico meus desejos, a serem realizados no caso de minha morte. Naturalmente, se eu um dia faltar, minha esposa Karen cuidar de nosso filho Kyle. Ela saber fazer isso como ningum. Mas no caso de ambos morrermos, desejo que Kyle seja entregue a seus padrinhos Daniele McAdams e Matthew Taylor, ambos residentes na cidade de Woodbridge, Indiana. So as pessoas mais incrveis que j conheci. Possuem algo essencial  criao de uma criana: uma infinita capacidade de amar. Tenho certeza de que, se eu e Karen faltarmos, Daniele e Matthew sabero dar a Kyle o que h de melhor nesse mundo. E no estou me referindo, no caso, a bens materiais. Pode ser que o leitor deste documento estranhe o fato de eu entregar a guarda de meu filho a duas pessoas estranhas, em vez de leg-la a minha famlia. Pois bem, a explicao  muito simples. Daniele e Matthew no so estranhos, mas sim os melhores amigos que eu e Karen j tivemos. Alm do mais eles vo se casar em breve. E, assim, podero criar Kyle no seio de uma verdadeira famlia, juntamente com os filhos que tiverem. Mas tudo isso s acontecer no caso de eu e Karen morrermos. E eu lhes asseguro, senhoras e senhores, que no pretendemos fazer isso to cedo. Em todo caso, anexo o endereo de Daniele McAdams a este documento. No sei por onde anda Matthew no momento, mas creio que ele poder ser localizado no tribunal de Woodbridge, j que  um brilhante advogado."
Matthew fechou a pasta e recostou-se na cadeira, passando a mo pelo rosto num gesto de tristeza e cansao.
	O velho senso de humor de Bill...  comentou, como que para si. E repetiu:  "Eu lhes asseguro, senhoras e senhores, que no pretendemos fazer isso to cedo..."
	Como ele poderia adivinhar que a tragdia estava to prxima...?
	Escute, Dani, ns no devemos nos entregar  tristeza assim.
	Tem razo.  Ela enxugou uma lgrima furtiva.  Prometi a mim mesma que no mais choraria por Bill e Karen. Que transformaria a saudade e a tristeza em amor,,. Por Kyle.
	Assim  que se fala  Matthew aprovou, num tom suave.
Um sorriso melanclico insinuou-se nos lbios de Daniele.
	Voc viu, Matthew? Bill realmente queria que eu ficasse com Kyle. Os Delaney no tero a menor chance de tir-lo de mim, nem que Jonathan recorra a todo o seu dinheiro e poder.
Matthew ergueu as sobrancelhas, num gesto que denotava dvida. E muito delicadamente explicou:
	Analisando o caso sob o ponto de vista jurdico, as coisas no so to simples assim.
	Por que diz isso?  Daniele indagou, apreensiva.
	Ora, voc no ouviu o desejo de Bill? Ele quer que Kyle seja entregue a ns dois.
Daniele ficou pensativa por alguns instantes.
	Creio que isso no ser problema, Matthew. Quando Bill fez esse testamento, julgava que ns dois iramos ncs casar.
	Exato. Mas ns j tnhamos rompido, quela altura  Matthew comentou, sem poder evitar um tom amargo na voz.
	Agora, tudo o que temos a fazer  explicar isso ao juiz. E j que estou disposta a adotar Kyle...
	No ser to fcil quanto parece, Dani  Matthew advertiu-a.
	Voc no est sendo excessivamente derrotista? ela protestou.
	No  ele replicou, com um suspiro.
	Mas Bill deixou bem claro que no deseja ver Kyle criado pelos Delaney.
	Acontece que a famlia tem direito legal sobre a criana. Compreende o que isso significa, Dani?
	Mas Bill no quer que Kyle seja entregue a eles  ela repetiu, com obstinao.  Ser que isso no ser levado em conta pelo juiz?
	Naturalmente que sim.
	Voc dir a ele sobre a importncia de Kyle ficar comigo, no ?
	Claro. Mas lembre-se de que ele ter de ouvir, tambm, os argumentos da parte contrria.
	O que os Delaney podem alegar?  Daniele comentou, dando de ombros.  Nada do que disserem far o menGr sentido... No depois de Jonathan ter deserdado Bill, em nome de uma coisa estpida, tal como o fato dele se casar com uma garota de classe mdia.  Com um largo sorriso, ela concluiu:
	A causa est ganha, Matthew.
"Gostaria de ter tanta certeza disso quanto voc, querida", ele respondeu, em pensamento.
O telefone celular que Matthew trazia no bolso do blaser tocou, indicando uma chamada.
	Deve ser uma das irms Delaney  ele disse a Daniele, antes de atender.  Al? Sim, aqui  o dr. Taylor. Quem est falando?
	So elas?  Daniele perguntou, baixinho.
Matthew negou com um gesto de cabea.
	Como? Ah,  voc, Perry? Hein? No, voc no est me perturbando, em absoluto. Mas do que se trata? De um caso que interessa a ns dois? Claro, poderei receb-lo amanh cedo em meu escritrio. Mas ser que voc no poderia me adiantar algo a respeito?
Certa de que Matthew tratava de algum assunto particular, Daniele levantou-se para se retirar. Mas ele fez-lhe sinal para que ficasse. Ela obedeceu, fitando-o com uma expresso interrogativa.
Matthew continuava falando:
	... Como? Ah, claro, eu me lembro de voc ter contado que veio de Ohio. Hein? Sim, naturalmente sei que a famlia Delaney reside l, tambm. Mas o caso ser julgado na comarca daqui de Woodbrid-
ge... Como? Sim,  lgico que a famlia Delaney precisava de um representante... Hein? Eles contrataram trs advogados? Entendo... E amanh mesmo voc estar entrando com o processo, a menos que tentemos um acordo? Sim, me parece razovel. Basta saber que tipo de acordo os Delaney tm em mente. Hein? No. Abrir mo da guarda de Kyle Delaney est fora de cogitao. Como?  Matthew riu, mas seus olhos traam uma expresso tensa.  Meu amigo, de onde voc tirou essa idia absurda? Ah, compreendo... Voc s est repetindo as palavras do sr. Jonathan Delaney? Ah, voc est em Ohio, na residncia da famlia? Diga-me, Perry, ser que eu poderia falar com o sr. Jonathan ou com uma de suas sobrinhas? Est bem... Eu aguardo.
Tapando o receptador do aparelho com a mo, Matthew explicou em voz baixa:
	Perry Waltman foi contratado pelos Delaney, juntamente com dois outros advogados.
	Quem  Perry Waltman?  ela indagou.
	Ora, voc o conheceu hoje de manh, quando quase amassei o carro dele.
	Ah, sim... O tal que admirava voc profundamente?  Daniele comentou, surpresa.
	Exato. Ele tanto me admira, que est ansioso por vencer-me no tribunal.
	Duvido que Perry Waltman seja competente.
	Ele  astuto... E perigoso.  Matthew voltou a falar ao telefone.  Al? Perry? Ah, compreendo. O sr. Jonathan Delaney no quer atender... Nem tampouco as sobrinhas? Claro... Se contrataram um advogado,  porque no desejam tratar diretamente do caso. Entendo... Nesse caso, eu gostaria de mandar-lhes um recado. Ser que voc pode anot-lo? Est bem... Diga-lhes que qualquer tentativa de nos corromper ser intil. Diga-lhes que nem todo o dinheiro do mundo poder fazer Daniele McAdams desistir da guarda do beb. Isso  tudo, Perry. Aguardarei voc amanh, s oito e meia, no meu escritrio. Boa noite.  Matthew desligou e voltou-se para Daniele.  Quer que eu lhe conte o teor da conversa, ou voc j percebeu?
	Entendi, entre outras coisas, que o velho Jonathan Delaney pensou em me comprar...  ela afirmou, com a voz carregada de indignao.  Foi isso?
Matthew assentiu com um gesto de cabea e acrescentou:
	Aposto que ele no usou, exatamente a palavra comprar. Disse apenas que estava disposto a ajud-la no que fosse preciso. Queria saber se voc sonhava em comprar seu prprio apartamento, ou um carro novo, ou uma chcara nos arredores da cidade... Esse tipo de coisa. Da, ele muito bondosamente a auxiliaria a alcanar seu objetivo...
	Desde que eu lhe entregasse Kyle.
	Exato.
	Que cretino. Quem ele pensa que sou?
	Uma pessoa que acabar se vendendo, mais cedo ou mais tarde  Matthew respondeu, num tom de revolta.   assim que Jonathan v o mundo e os homens: como objetos nos quais basta colocar a etiqueta certa, com o preo estipulado... E tudo se resolve.
	Acontece que no sou um objeto e nem tampouco estou  venda.
	Sei disso. E pedi a Perry para falar com Jonathan ou com as irms Delaney, pois queria transmitir-lhes esse recado pessoalmente.
	S que, pelo que entendi, eles se recusaram a conversar com voc.
	Claro. Se eles tm um menino de recados como Perry Waltman para cuidar desses assuntos, para que vo se expor pessoalmente? Alm do mais, sempre h a possibilidade da conversa estar sendo gravada...
	Ns bem que deveramos gravar, para mostrar ao juiz do que Jonathan  capaz.
	Ele j sabe disso, Dani. Alm disso, de nada adiantaria gravarmos a ligao, pois era o dr. Perry Waltman quem estava falando e no Jonathan, que negaria esse fato sem o menor peso de conscincia.
	Por isso ele se recusou a falar com voc  Daniele concluiu.
	Exatamente.
	Bem, e agora, quais so os prximos passos?
	Amanh mesmo darei entrada no processo de adoo. Depois, s nos resta esperar pela resposta dos Delaney, que certamente ser bombstica.
	Ns vamos ganhar esta causa, Matthew  Daniele afirmou, fitando-o com ansiedade.
Ele levantou-se, depositando o copo vazio sobre a mesa de centro. Ela tambm ergueu-se, olhando-o no fundo dos olhos azuis como safiras.
	Dani...  Matthew murmurou, acariciando-lhe os cabelos negros.  Voc ter de ser forte.
	Eu serei... Por Kyle.  E ela fechou os olhos, gozando a sensao deliciosa que a mo suave de Matthew lhe causava. Agora ele acariciava-lhe o rosto, desenhando-lhe o contorno dos lbios.
"Ele vai me beijar", Daniele pensou, com um calafrio de prazer. "E, o que  pior, no tenho a menor vontade de impedi-lo."
Mas ao contrrio do que ela esperava, Matthew apenas inclinou-se e beijou-a levemente, na testa.
	Boa noite, Dani.
Um tanto desconcertada, ela o acompanhou at a porta.
	Diga"a Kyle que eleja conquistou meu corao... E d um abrao em sua me, por mim.
	Eu farei isso.
Matthew saiu e entrou no Range Roger. Acionou o motor e respirou profundamente o ar da noite, mesclado ao perfume das rosas do jardim em frente ao sobrado.
Tinha sido muito difcil vencer a tentao de tomar Daniele nos braos para um longo beijo, ele pensou. Mas valera a pena. No queria aproximar-se de Daniele, ao menos por enquanto. Afinal, ela mesma lhe pedira que se mantivesse  distncia.
Mas num futuro prximo, quando o processo j houvesse terminado, ele voltaria a declarar seu amor. E dessa vez no aceitaria um no como resposta. Lutaria por aquela mulher, com todas as suas foras... At reconquist-la.
CAPITULO VIII

	Oh, no!  Daniele exclamou, ao ouvir o som do pneu que acabava de estourar, a dois quarteires de sua casa.  Isso no pode acontecer justamente agora. Eu e minha velha sorte...
Com um olhar ansioso, consultou o relgio de pulso. Era uma e quinze da tarde. Faltavam quarenta e cinco minutos para o incio da primeira audincia no tribunal de Woodbridge. E ela no podia, em hiptese alguma, chegar atrasada.
O difcil seria trocar o pneu sem se sujar, Daniele pensou, saltando do veculo.
Estava muito elegante num vestido de vero com motivos florais, de corte simples, levemente god, cingido na cintura por uma faixa larga. A cor ver-de-gua predominava na estampa, mesclada a tons de ouro-queimado e bege.
Lutando para vencer o nervosismo que ameaava domin-la, Daniele trocou o pneu o mais depressa que pde. Quando por fim terminou o trabalho, tornou a consultar o relgio: passava de uma e trinta e cinco. A troca de pneus tinha levado vinte minutos.
Com uma expresso de desgosto, ela olhou para si... E sentiu-se prestes a explodir. A meia de nylon havia desfiado e uma mancha de graxa destacava-se na barra do vestido.
Daniele suspirou. No podia se apresentar assim, no tribunal.
	Eu no acredito que essas coisas aconteam
comigo  disse, entre os dentes, manobrando seu
pequeno escort de volta para casa.
	Mas o que voc est fazendo aqui?  Samantha espantou-se ao v-la entrar.
	Por favor, mame, no faa perguntas, sim?
	Da-d!  exclamou o pequeno Kyle, sentado no tapete da sala. Estava s de calozinho, rodeado de brinquedos, e tinha um sorriso luminoso no rosto de anjo.
	Perdoe-me, meu amor, mas no posso brincar com voc agora.  Correndo, Daniele entrou no quarto e abriu as portas do guarda-roupas.
	Voc no vai nem mesmo me contar o que aconteceu?  Samantha indagou, surgindo  porta.
	A velha sndrome do pneu furado  Daniele resumiu, retirando do armrio um vestido de algodo, branco, ornado com delicados bordados na gola em V, mangas e bolsos. O modelo, presente de Samantha no ltimo vero, delineava-lhe o corpo es-guio e escultural. O corte justo, cinturado, valorizava-lhe as curvas suaves dos quadris. O decote discreto sugeria os seios firmes e delicados.
	Voc est linda, filha  disse Samantha.  Mas precisa trocar essas meias.
	Puxa, eu j ia me esquecendo.  Daniele calou um par de meias novas e sapatos de salto baixo. Saiu to rpido quanto havia chegado. Faltavam exatamente dez minutos para o incio da sesso.
Dirigindo pelas ruas arborizadas de Woodbridge, 
Daniele fazia um intenso esforo para vencer a tenso que ameaava domin-la. Precisava estar calma para enfrentar a sesso do tribunal. Era isso que Matthew havia lhe dito, na vspera, depois de instru-la sobre a forma de responder s perguntas dos advogados dos Delaney.
	Droga  Daniele resmungou, parando num farol fechado, na avenida principal da cidade. Re-costando-se no assento, ela fechou os olhos por um instante, ordenando-se calma...
	Ora, vejam s quem est de volta  soou uma voz masculina, a seu lado.  A princesa fugitiva regressou ao lar.
Ela voltou-se e deparou com Roger, sentado ao volante de um Mercedes preto, de estilo clssico.
	Como vai, ex-sra. Grant?
Daniele arregalou os olhos, numa expresso de espanto. Tinha prometido a si mesma que procuraria Roger para pedir-lhe desculpas pelo que fizera. Mas os ltimos dias haviam passado rapidamente... E ela gastara todas as suas energias para concentrar-se no caso de Kyle.
Matthew havia conseguido uma audincia de emergncia com o juiz Evan Harcourt. E, assim, Daniele no pudera pensar em outra coisa.
	Roger  ela disse, com voz trmula, lanando um olhar ansioso  luz vermelha do semforo.  Preciso conversar com voc, para desculpar-me pelo que fiz. Talvez possamos ser amigos...
	Isto ser absolutamente impossvel  ele a interrompeu, num tom frio.  Ainda estou me recuperando do escndalo que voc causou, quase arruinando minha carreira profissional.
	Eu... Sinto muito  ela respondeu, penalizada.  No era minha inteno mago-lo, Roger.
	A mgoa ainda pode ser superada. O difcil ser enfrentar a repercusso que esse fiasco me causou.
Daniele suspirou, com um sorriso amargo nos lbios. Aquele era bem o estilo de Roger Grant... Sempre mais preocupado com a opinio pblica do que com os problemas em si.
	Mais uma vez, peo que me perdoe.
	Isso no ficar assim  ele sentenciou, fitan-do-a com um olhar glido.  Sou um homem calmo, mas tenho meus limites. E voc os ultrapassou.
Daniele estremeceu. Roger Grant estava falando srio... Disso, tinha certeza.
O semforo abriu e ela partiu rapidamente, ainda mais tensa do que antes.
	O que mais falta me acontecer?  murmurou, sentindo-se mais frgil do que nunca. Precisava recuperar o controle, pois dentro de poucos minutos estaria enfrentando uma verdadeira batalha.
O tribunal de Woodbridge funcionava numa manso antiga, da era vitoriana. A construo passara por uma reforma h alguns anos e ali fora instalada a Secretaria da Justia, o cartrio e outras reparties pblicas.
O tribunal tinha uma entrada independente, ao lado da escadaria principal. Daniele deixou o carro no estacionamento e, quase correndo, entrou na manso. Faltavam trs minutos para as duas horas. Ela no chegara atrasada, afinal.
	Dani, por que demorou tanto?  Matthew recebeu-a com uma expresso aflita.  Achei que no fosse chegar a tempo.
	Eu e minha velha sorte  ela comentou, forando um sorriso.
	No me diga que o pneu de seu carro furou, a caminho daqui...
	Acertou em cheio, dr. Taylor  ela tentava gracejar, para aliviar o nervosismo. Mesmo assim, tensa, no pde deixar de reparar no quanto Matthew estava elegante em seu terno cinza-chumbo, camisa azul-clara e gravata combinando. Nos ps, macios mocassins de cromo alemo, pretos.
	Voc est linda  disse Matthew, fitando-a com intensidade.  Eu, se fosse o juiz Evan Har-court, no hesitaria em dar o ganho de causa  mulher mais encantadora da cidade...
	Ora, no diga tolices  Daniele o advertiu, lisonjeada, corando levemente.
	Voc fica ainda mais fascinante quando embaraada  ele replicou, com um sorriso radiante, que parecia iluminar o austero ambiente ao redor. De repente, seu rosto se contraiu numa expresso severa.
	O que foi?  Daniele indagou, apreensiva.
	Olhe s...
Daniele voltou-se na direo da porta e viu as irms Delaney chegando, juntamente com Roger Grant.
	O que ele est fazendo aqui?  Daniele perguntou, com voz trmula.
	Eu j imaginava que Perry Waltman fosse convoc-lo...
	E por que no me contou?
	E do que adiantaria?
	Eu teria ficado prevenida...
	Creio que isso a deixaria ainda mais nervosa  Matthew contraps.  Alm do mais, eu no tinha certeza de que Perry Waltman convocaria Roger. Era s uma hiptese...
	Que diabos Roger Grant tem a ver com esse caso?  Daniele protestou. Ia contar a Matthew que o havia encontrado, a caminho do tribunal. Mas sabia que no teria tempo para tanto.
Matthew, por sua vez, estava preocupado. Conhecia muito bem o motivo pelo qual o ex-noivo de Daniele estava ali. E j havia tomado certas precaues quanto a isso, preparando uma srie de perguntas para fazer a Roger, caso Perry o chamasse como testemunha.
	Dr. Taylor  disse Perry Waltman, saindo da sala reservada aos advogados para o saguo do tribunal. Caminhou na direo de Matthew com a mo estendida num cumprimento:  E um imenso prazer rev-lo.
	Como vai?  Matthew respondeu, num tom polido.
Perry Waltman sorriu, com ar subserviente:
	Espero que este processo no estrague nossa amizade, dr. Taylor.
	Como  possvel estragar o que nunca tivemos, meu caro?  Matthew retrucou, muito srio.
	No fale assim, dr. Taylor. O senhor sabe que sempre o tive em alta considerao. -Voltando-se para Daniele, cumprimentou-a:  Como est, senhorita?
	Bem, obrigada  ela respondeu, num tom seco.
	timo. Com licena... Preciso falar com minhas clientes.  E Perry foi se juntar s irms Delaney e Roger.
	O velho Jonathan Delaney no veio com elas  Daniele comentou, lanando um olhar tenso em direo ao grupo.
	Como voc mesma j havia me dito, ele faz questo de no aparecer neste caso.
	E verdade. E, pelo visto, os dois outros advogados contratados pela famlia tambm no compareceram.
	Ser que os Delaney confiam tanto assim em Perry Waltman?
A conversa foi interrompida por um funcionrio que, abrindo a porta que conduzia  sala de audincias, convidou:
	Senhoras e senhores, queiram entrar.
Daniele tomou flego. Sua felicidade e o destino de Kyle dependiam do que aconteceria nas prximas horas.
	Seja forte  Matthew murmurou, pressionando-lhe levemente o brao, num gesto de solidariedade e carinho.
	Obrigada  ela respondeu, num fio de voz. Tentou sorrir, mas no conseguiu.
	Voc sabe que farei tudo o que estiver ao meu alcance...
	Sim, Matthew. E confio plenamente em voc.
	Vamos?  Ele a conduziu  sala.
Alguns metros atrs, vinham as irms Delaney, Roger e o dr. Perry Waltman.
A sala era espaosa, tinha as paredes altas e forro de madeira, no estilo antigo. O cho de mrmore rosa, as cadeiras estofadas, as passadeiras cinza... Tudo ali denotava austeridade. E Daniele sentiu-se intimidada naquele ambiente solene.
Num plano um pouco mais alto ficava a mesa do juiz, de mogno legtimo, bem como a cadeira de es-paldar alto. Ao lado, numa mesa mais baixa, o escrivo j estava a postos. Seu trabalho seria registrar tudo o que fosse falado durante a sesso.
Separada das cadeiras reservadas ao pblico por uma cerca baixa de madeira, estava a mesa de Matthew. No lado oposto, a de Perry Waltman.
Daniele olhou para trs. Exceto as pessoas envolvidas no processo, no havia ningum para assistir  sesso. Isso a deixou mais tranqila.
O pblico s comparecia s audincias por ocasio dos julgamentos de crimes ou casos polmicos.
O juiz Evan Harcourt entrou na sala pontualmente s duas horas. Todos se levantaram em sinal de reverncia e respeito.
	Boa tarde, senhoras e senhores  ele lanou um cumprimento geral. Em seguida voltou-se para Matthew e, depois, para Perry:  Dr. Taylor... Dr. Waltman... Acho que podemos comear.  Sentou-se na cadeira de espaldar alto e dirigiu-se ao escrivo:
	Est pronto, senhor?
	Sim, meritssimo.
	timo. Declaro aberta a sesso.
Com o corao aos saltos, Daniele viu o juiz folhear a grossa pasta que tinha diante de si.
	Estamos dando incio ao processo de adoo do menor Kyle Delaney, solicitado pela srta. Daniele Olivia McAdams, residente nesta cidade...
Daniele fechou os olhos por um instante, reunindo todas as energias de que dispunha, ordenando a si mesma que se mantivesse calma... O que era quase impossvel.
	O processo foi contestado pela famlia de Kyle Delaney, atravs da sra. Vernica Delaney e Sarah Delaney, primas em segundo grau do menor, representadas neste tribunal pelo dr. Perry Waltman 
o juiz prosseguiu. Retirando os culos, acrescentou:
	O que desejo, como juiz e ser humano,  conseguir o melhor para o pequeno Kyle Delaney, nascido a sete meses. Ele merece uma vida digna, num lar onde possa receber carinho e conforto. Considero esses dois fatores como essenciais  formao de uma pessoa. So eles que lhe daro o esteio emocional, to necessrio a todos ns. Portanto, senhoras e senhores, espero que seu objetivo aqui seja o de chegar a um acordo vantajoso, no para ns, mas para Kyle Delaney. Suponho que ele esteja muito ocupado, no momento, tirando sua sonequinha da tarde... Por isso no pde comparecer a esta sesso.
O comentrio final do juiz provocou risos, o que serviu para aliviar o clima tenso que reinava no ambiente.
Daniele fitou Evan Harcourt com respeito e admirao. Ali estava um homem justo e bondoso, ela pensou, sentindo-se mais confiante.
Aps a explanao do juiz, Matthew foi convidado a expor os motivos pelos quais Daniele queria, e merecia, adotar o pequeno Kyle.
Falou de maneira brilhante, como Daniele j esperava. Mesmo assim ela se surpreendeu com a forma inteligente, ponteada de toques humorados, com que Matthew argumentava.
	Isso  tudo, dr. Taylor?  Evan Harcourt indagou, no final da explanao.
	Por enquanto, sim, meritssimo  Matthew respondeu, tirando do bolso do palet um leno imaculadamente branco e enxugando a testa pontilhada de suor.
	Voc foi maravilhoso  Daniele cochichou-lhe ao ouvido, quando ele voltou a sentar-se.
	Agora vamos esperar pelo bombardeio do inimigo  ele retrucou, no mesmo tom.
Era a hora de Perry Waltman expor seus argumentos que, embora no soassem to brilhantes quanto os de Matthew, eram bem fundamentados.
Matthew havia defendido o direito de Daniele adotar o pequeno Kyle, j que Bill deixara esse desejo expresso em seu testamento. Perry, por outro lado, contestava esse desejo que, segundo ele, fora manifestado num momento de revolta contra o av, que o deserdara.
	Se o pobre Bill Delaney vivesse por mais tempo, acabaria fazendo as pazes com o av, que por sinal  um homem muito dedicado  famlia  dizia Perry Waltman.  E ento certamente anularia o testamento e entregaria a guarda de seu filho  quem ela legalmente pertence, ou seja:  famlia Delaney.  Apontando Sarah e Vernica Delaney, que pareciam muito seguras de seu direito sobre Kyle, ele acrescentou.  Essas duas mulheres, que sempre realizaram obras sociais na cidade onde moram, socorrendo pessoas desamparadas pela sorte, no podem...  E fez uma pausa de efeito.  Simplesmente no podem ser privadas da companhia do mais jovem membro da famlia. Seria desumano roubar-lhes esse direito... Ou melhor, este dever, que elas esto ansiosas para cumprir, to logo a srta. Daniele McAdams resolva compreender este fato to bvio. Se ela gosta tanto de crianas, que tenha seus prprios filhos.
	Ei, espere a!  Daniele ergueu-se, indignada.
	No faa isso  Matthew advertiu-a, em voz baixa.
	Srta. McAdams, por favor, se acalme  disse o juiz, num tom amvel.  Ns ouviremos tudo o que tem a dizer, no momento propcio.
	Desculpe, meritssimo.  Daniele voltou a sentar-se e, com voz trmula, explicou a Matthew:  Eu me descontrolei.
	Era exatamente isso que Perry esperava que voc fizesse  ele murmurou.
A explanao de Perry Waltman seguiu-se uma sesso de perguntas com as irms Delaney. Com um sentimento de revolta, Daniele o viu conduzir o interrogatrio com incrvel astcia. As irms Delaney portavam-se como duas almas generosas, aflitas por acolher Kyle no seio da famlia.
"Se eu no as tivesse conhecido antes, seria capaz de acreditar em cada palavra do que esto dizendo", pensou, com um suspiro, recordando-se da total indiferena das duas mulheres quando ela fora procur-las para pedir-lhes que cuidassem de Kyle.
	No tenho mais perguntas, meritssimo  disse Perry Waltman, depois de Vernica Delaney implorar,  beira das lgrimas, que no a separassem de Kyle.
	Parece uma pea de teatro mal representada  Daniele sussurrou, para que s Matthew a ouvisse.
Mas, naquele exato momento, ele estava se levantando para interrogar Vernica Delaney.
	Vejo que a senhora ama profundamente seu primo em segundo grau, o pequeno Kyle Delaney...  ele comeou.
	E verdade, doutor  a mulher confirmou, com veemncia.  E pretendo me dedicar a ele pelo resto de minha vida.
Matthew assentiu com um gesto de cabea e perguntou em seguida:
	Diga-me, sra. Vernica Delaney... Quantas vezes viu Kyle, em toda a sua vida?
	Apenas uma. Mas foi o suficiente para que eu me sentisse cativada por aquela criana adorvel.
	E quando, exatamente, a senhora o viu?
	Quando fomos  casa de Daniele McAdams, para tratar da adoo. Foi l que o vimos.
	E ele estava... Bem?
	Como assim?
	Estava com uma aparncia saudvel?
	Sim  ela respondeu, depois de hesitar por um momento.  Kyle pareceu-me bem, mas tenho certeza de que, se vivesse conosco, na casa  qual verdadeiramente pertence, estaria muito melhor.
	Explique-me isso, senhora  Matthew pediu, olhando de relance para Daniele, que retesada na poltrona parecia prestes a saltar sobre Vernica Delaney.
	Bem, no quero dizer que Kyle estivesse maltratado, ou algo assim. Apenas, acho que eu e minha irm, bem como nosso av Jonathan, poderamos lhe proporcionar um nvel de vida mais alto. Afinal, somos uma famlia de posses e temos tradio. Entende o que quero dizer, doutor?
	Sim. Mas voltemos ao incio de nossa conversa...  Matthew andava de um lado para o outro, as mos cruzadas atrs das costas.  A senhora disse que viu Kyle s uma vez... Certo?
	Exato.
	Entretanto, ele foi batizado na parquia de nossa cidade, h cerca de seis meses. Bill e Karen fizeram questo de realizar a cerimnia aqui, para que a famlia pudesse comparecer.  Vernica Delaney franziu o cenho, o que significava que Matthew acertara o alvo. Ele prosseguiu.  Entretanto, nenhum dos Delaney assistiu  cerimnia. Alis, pelo que me consta, nem a senhora, nem sua irm ou seu av concordaram sequer em ver Bill, Karen ou o beb. Como se explica isso, senhora?
	Protesto, meritssimo  Perry Waltman interveio.  Ele est intimidando a testemunha.
	Protesto recusado  o juiz Evan Harcourt sentenciou.  Pode continuar, dr. Taylor.
	Peo que responda a pergunta, senhora  disse Matthew, fitando Vernica no fundo dos olhos.
	Bem...  Ela comeava a se embaraar.  Na verdade, as relaes entre Bill e vov estavam abaladas, na poca. Da, por solidariedade a vov, eu e minha irm resolvemos... Ficar afastadas de Bill. Se soubssemos que ele partiria deste mundo to cedo, certamente teramos agido de outro modo.
	De um modo mais humano, a senhora quer dizer?
	Protesto  Perry tornou a intervir.
	Aceito  disse o juiz. Voltando-se para Matthew, recomendou:  Dr. Taylor, queira se ater apenas aos fatos, sim?
	Desculpe, meritssimo.  Matthew tornou a encarar Vernica, que o fitava com uma expresso de raiva.  Bem, senhora, vamos voltar agora ao momento em que Daniele McAdams foi procur-la... O que ela disse, na ocasio?
	Que ia se casar e que, embora amasse Kyle com todo o seu corao, no poderia ficar com ele.
	Ela disse que amava Kyle?  Matthew indagou, com um sorriso.
A mulher levou a mo  boca, compreendendo que acabava de ceder um ponto ao inimigo... E num tom irritado, respondeu:
	Bem, ela falou que gostava da criana. Afinal, quem conseguiria manter-se indiferente diante de um beb encantador como o meu primo'?  E frisou as ltimas palavras.
	Ela lhe falou por que estava disposta a entregar-lhe o beb, j que o amava tanto?
	No.
	Mentira  Daniele disse baixinho. Havia contado muito bem s irms Delaney sobre o motivo que a levara a abrir mo de Kyle.
	No mesmo?  Matthew insistiu.
	Bem, se ela mencionou o motivo, eu no me lembro  Vernica respondeu, esquiva.
	E na ocasio a senhora e sua irm concordaram em ficar com Kyle Delaney?
	Sim.
	Sentiram-se felizes por isso?
	Imensamente felizes, doutor.
"Outra mentira", Daniele pensou. "Elas no estavam nem um pouco interessadas em Kyle... Ao menos at Jonathan fazer questo da adoo."
	 por isso que esto lutando pelo beb... Por que acreditam que ele lhes trar muita felicidade?
	Na verdade, h um outro motivo...  Vernica sorriu.
	Qual?  Matthew indagou, cruzando os braos.
	Daniele McAdams.
	No entendi  Matthew retrucou, sem demonstrar a inquietao qe as palavras de Vernica lhe causaram. Aonde ela pretendia chegar? Perguntou-se.
	A questo  que Daniele McAdams  uma pessoa desequilibrada emocionalmente.
	O qu!?  Daniele exclamou, num sussurro.
	Explique-se melhor, senhora  Matthew exigiu, num tom seco.  O que a faz acusar a srta. McAdams de... Desequilibrada?
	Ora, ela esteve envolvida com o senhor, h algum tempo  Vernica respondeu, com uma calma surpreendente. Com certeza, havia sido instruda por Perry Waltman.  Logo depois, tornou-se noiva do sr. Roger Grant... E abandonou-o no dia do casamento, causando um escndalo e uma profunda vergonha ao pobre homem. Agora diga-me: como  que uma pessoa desse tipo pode adotar uma criana? O pobre Kyle precisar de um psiquiatra, se continuar na companhia dessa mulher.
Daniele ergueu-se da cadeira. Estava lvida e, por um instante, Matthew julgou que ela fosse desmaiar.
	No tenho mais perguntas a fazer, meritssimo ele afirmou, sem denunciar a tenso que o invadia.  Peo-lhe para fazer uma pausa.
	Solicitao aceita  respondeu Evan Harcourt.  A sesso est suspensa por quarenta minutos.

CAPITULO IX

	Eles esto jogando duro.  Na cantina do tribunal, Daniele e Matthew tomavam caf expresso com creme e torradas. O que mais pretendem dizer a meu respeito? Que sou uma psicopata, ou algo pior?
	Voc no deve ficar to abalada por causa daquela acusao, que por sinal no tem o menor sentido  Matthew aconselhou-a.  Estamos numa disputa e cada lado far de tudo para vencer o outro.
	Mas dizer mentiras!  Daniele estava indignada.  Isso  muito sujo, Matthew.
	Faz parte do jogo  ele comentou, no tom mais calmo que conseguiu. No fundo, porm, estava apreensivo. Vernica Delaney havia sido muito bem instruda... E Matthew podia apostar que Perry Waltman no fora o nico responsvel por isso. Havia mais dois outros advogados no caso... Eles com certeza tinham feito uma detalhada investigao sobre Daniele e, assim, preparado suas clientes para a batalha judicial.
	Pensei que as pessoas lutassem com justia pelo que desejam...  Daniele desabafou.  Que droga! Afinal, estamos num lugar que se chama Tribunal de Justia! Ser que a sra. Vernica Delaney e sua adorvel irm sabem o que essa palavra significa?
Matthew sorriu:
	Dani, em que planeta voc vive? Ela o fitou sem entender.
	Como assim?
	Estamos num mundo cruel e competitivo.
	Exatamente por isso, precisamos ser ntegros. Temos de recuperar muitos valores que se perderam e...
	Concordo plenamente  Matthew interrompeu-a, consultando o relgio.  Mas nem todas as pessoas pensam assim.
	Infelizmente voc tem razo, Matthew  ela assentiu, com um suspiro.
Erguendo-lhe o queixo, ele fitou-a longamente antes de dizer:
	Continue firme, Dani... Promete?
	Sim  ela respondeu, forjando uma convico que estava longe de sentir.
	Assim  que se fala.
	A propsito...  Daniele indagou, enquanto ambos caminhavam de volta  sala de audincias , voc foi brilhante ao interrogar Vernica Delaney.
	Voc achou, ?
	Sim.
	Eu a fiz reconhecer que voc amava Kyle. E isso significou um ponto para ns.
	Pena que logo em seguida ela tenha respondido com um golpe baixo...
	Que ns saberemos responder  altura - Matthew afirmou, com veemncia.
	E o que pretende fazer agora?  Daniele quis saber.  Interrogar Sarah Delaney?
	No. Vou dispens-la, a menos que Perry a faa dizer algo que necessite de rpida contestao. Caso contrrio, no farei perguntas.
	Por qu?
	Porque ela me parece mais astuta do que a irm... Os advogados devem t-la instrudo muito bem, para desfechar golpes fatais... S que ns no estaremos no alvo, para receb-los.
Daniele fitou-o com estranheza. E s entendeu as palavras de Matthew alguns minutos mais tarde, quando Sarah Delaney desconcertou-se ao ser dispensada:
	Mas isso no  possvel, meritssimo  protestou.  Eu... Tenho revelaes muito importantes a fazer sobre o caso. Revelaes que influenciaro sua deciso e...
	Senhora...  Evan Harcourt interrompeu-a, com um sorriso complacente.  Se suas revelaes so to importantes assim, queira pedir a seus advogados para anex-las ao processo.
Sarah ia continuar protestando, mas Perry Walt-man disse-lhe algo ao ouvido, que a fez calar-se.
	Eu no falei? Matthew cochichou para Daniele.
	Voc tem uma bola de cristal, ou algo assim?  Ela sorriu.
	Tenho apenas alguns anos de experincia...
	E uma inteligncia brilhante  Daniele
completou.
O dr. Perry Waltman convidou Roger Grant para sentar-se no banco das testemunhas. Daniele estremeceu.
	No se preocupe  Matthew sorriu, para tranqiliz-la.  Tenho timas perguntas preparadas para ele.
Ela assentiu, com a respirao suspensa, enquanto Perry Waltman apresentava ao juiz as qualificaes de Roger e os motivos pelos quais o havia convidado a comparecer  sesso.
	Diga-me, sr. Grant, se conhece aquela senhorita ali...  E Perry apontou na direo de Daniele.
	Sim.
	E poderia nos dizer o nome dela?
	Claro.  E Roger pronunciou devagar:  Daniele Olivia McAdams.
	Qual o tipo de relao entre o senhor e a senhorita McAdams?  Perry Waltman indagou.
	No momento, no temos nenhuma relao.
	Mas j tiveram?
	Sim.
	Poderia descrev-la para ns?
	Mais do que isso, posso resumi-la: ns quase nos casamos.
A expresso de exagerado espanto de Perry Waltman causou em Daniele uma sensao de asco.
	Perry Waltman est cansado de saber disso  ela disse, baixinho, a Matthew.  Por que toda essa representao? O que ele pretende com tanto fingimento?
	Impressionar o juiz...  Matthew respondeu, concentrado na cena que se desenrolava entre Perry e Roger.  Mas no conseguir  acrescentou.
	Tomara que voc tenha razo, Matthew.
	O senhor acaba de dizer que quase se casou com a srta. McAdams. E o que o fez desistir?
	Na verdade, foi ela quem desistiu.  E Roger lanou a Daniele um olhar que a fez estremecer.  Mas confesso que, a essa altura dos acontecimentos, sinto vontade de agradec-la.
	Explique-nos isso melhor, senhor  disse Perry Waltman.
	Ora, porque agora compreendo que no poderia construir uma vida com uma pessoa to...  Ele fez uma pausa de efeito, antes de concluir:  To instvel como a srta. McAdams.
	Protesto, meritssimo  Matthew interveio.  O rompimento do matrimnio entre a srta. McAdams e o sr. Roger Grant no  pertinente a este caso.
	Protesto aceito  Evan Harcourt concedeu.  Por favor, dr. Waltman, atenha-se apenas ao assunto da adoo.
	Desculpe, meritssimo  Perry Waltman retrucou, com um sorriso triunfante.  S estamos tentando provar que o menor Kyle Delaney no deve ser entregue a uma pessoa to desequilibrada emo-cionalmente quanto a srta. McAdams. E achei que o testemunho do sr. Roger Grant nos ajudaria a provar que estamos dizendo a verdade. Bem, no tenho mais perguntas.
	Certo  o juiz assentiu e voltou-se para Matthew:  O senhor deseja questionar a testemunha?
	Sim.  Matthew aproximou-se de Roger Grant, que fitou-o com hostilidade. Num tom muito calmo, indagou:  Diga-me, como o senhor tomou conhecimento da existncia de Kyle Delaney?
	Quando ele foi entregue  srta. McAdams, h pouco mais de um ms.
	E ela lhe contou que pretendia adotar o beb?
	Sim.
	E o senhor concordou?
Roger hesitou, antes de responder:
	No.
	Pode nos explicar por que era contra a adoo? Roger remexeu-se na cadeira. Parecia inquieto.
	Bem, eu queria formar minha prpria famlia...
	E o fato de adotar Kyle Delaney o impediria?
	De certo modo, sim. Eu achava que deveria ter meus prprios filhos...
	Com Daniele McAdams?
	Sim, claro  Roger respondeu, num tom seco.  J que eu ia me casar com a srta. McAdams,  de se supor que ela seria a me de meus filhos.
	E o que foi que ela alegou, quando rompeu o compromisso com o senhor?
	Protesto, meritssimo  Perry Waltman apartou.  O prprio dr. Matthew Taylor argumentou, ainda h pouco, que a relao afetiva entre o sr. Roger Grant e a srta. Daniele McAdams nada tem a ver com o caso.
	Acontece que foi por causa de Kyle Delaney que Daniele McAdams rompeu o casamento, justamente no momento da cerimnia  Matthew contraps, com veemncia.  E isto no  novidade. Vivemos numa cidade pequena, onde as notcias correm rpido.
	Prossiga, dr. Taylor  disse o juiz.
	Obrigado, meritssimo.  E Matthew voltou-se para Roger Grant:  A srta. McAdams conversou com o senhor sobre a adoo de Kyle Delaney, certo?
	Eu j disse que sim  Roger respondeu, friamente.
	Ela lhe pareceu muito empenhada em adotar o beb?
	A princpio, sim.
	Por que... A princpio?
	Porque depois mudou de idia e consentiu em entreg-lo  famlia  qual pertence.
	O senhor a forou a isso?
	No. Apenas, coloquei meu ponto de vista.
	Seria correto afirmar que o senhor lhe disse: "ou voc entrega o beb  famlia, ou nosso compromisso est rompido"?
	No  Roger respondeu, meneando a cabea.
	O senhor no disse isso  srta. McAdams? Roger parecia embaraado.
"Ponto para ns, Matthew Taylor", Daniele pensou, com uma sensao de alvio.
	Bem, eu apenas falei que no concordava com a adoo. E ela acatou meu ponto de vista.
	Compreendo. E depois tornou a mudar de idia?
	Sim. Como eu j disse, a srta. McAdams  muito instvel.
	Qual foi o motivo que ela alegou, para romper o casamento no momento exato da cerimnia?
Perry Waltman quis protestar novamente. Mas Matthew no lhe deu tempo:
	O motivo, sr. Roger Grant... Conte-nos. 
Derrotado, Roger meneou a cabea enquanto respondia:
	Ela disse que se eu no concordasse em adotar Kyle Delaney, nosso casamento estaria cancelado.
	E o senhor, naturalmente, no cedeu. Certo?
	Protesto, meritssimo  Perry tornou a intervir.  O dr. Taylor est conduzindo a testemunha.
	No tenho mais perguntas  disse Matthew, antes que o juiz respondesse. E voltou  mesa.
	Voc foi maravilhosa.  Daniele o recebeu com um largo sorriso.
	Obrigado  ele agradeceu, baixinho.  Agora  sua vez.
De fato, o dr. Perry Waltman convidou Daniele a sentar-se no banco das testemunhas, minutos depois.
Erguendo-se, ela obedeceu. Seu corao pulsava to rpido, que quase a fazia perder a respirao. Lutando para manter o controle, ouviu a primeira pergunta de Perry Waltman:
	A senhorita deseja adotar Kyle Delaney... Certo?
	No h nada que eu queira mais neste mundo, dr. Waltman  ela sentenciou, numa voz estranhamente calma.
	Poderia nos explicar por que deseja, to ardentemente, conseguir a guarda do beb?
	Porque Kyle  filho de meus melhores amigos, Bill e Karen Delaney, que infelizmente j no esto entre ns... Porque dei minha palavra a eles de que cuidaria de Kyle, se algo lhes acontecesse. E, tambm, porque nesse pouco tempo de convivncia com Kyle, aprendi a am-lo profundamente.  Encarando o advogado com uma expresso altiva, Daniele indagou:  Quer que eu lhe d mais motivos, doutor, ou esses j so suficientes?
	Sua resposta foi muito esclarecedora, senhorita Perry Waltman afirmou, com um sorriso. Mas seus olhos estavam frios como gelo.  Vejo que tem certeza absoluta de que os falecidos Bill e Karen Delaney de fato desejavam que asenhorita cuidasse do beb, no caso de ambos faltarem.
	Absoluta  Daniele repetiu, com veemncia. Afinal, Bill expressou essa vontade num testa mento e...
	Falaremos desse testamento depois, senhorita --- Perry Waltman interrompeu-a, um tanto rspido.
	Antes, quero fazer-lhe uma pergunta.
	Pois no?
	A senhorita no acha que o menor Kyle Delaney estaria muito melhor se fosse adotado pela famlia  qual pertence? Uma famlia que poder lhe dar todo o conforto e carinho que uma criana merece?
	Eu tambm posso  Daniele afirmou, categrica.  E me atrevo a dizer que farei isso melhor do que os Delaney.
	Oh!  Perry Waltman exclamou, com exagerado espanto.  O que a faz pensar assim, srta. McAdams?
	O fato de as irms Delaney terem demonstrado um desinteresse total por Kyle, quando fui procur-las para pedir-lhes que o adotassem.
	Desinteresse?  Perry Waltman repetiu, com ar de dvida.  Permita-me dizer que est enganada, senhorita... Pois, se as irms Delaney no se importassem com o pequeno Kyle, no estariam aqui, lutando pela sua guarda.
	Elas s esto fazendo isso para contentar o sr. Jonathan Delaney, que de repente resolveu se arrepender por ter deserdado Bill e quer curar seu remorso adotando o beb.
Um burburinho correu entre os presentes. O juiz pediu silncio. Danrele mal podia acreditar no que acabara de dizer. Tinha sido mais decidida do que se julgava capaz. Lanando um olhar a Matthew, que a fitava com surpresa e admirao, ela constatou que marcara mais um ponto. E sentiu-se invadida por uma onda de confiana.
	O velho Jonathan deserdou Bill, quando ele se casou com Karen, s porque ela pertencia a um nvel social mais baixo  Daniele declarou, de um s flego.  As irms Delaney o apoiaram e jamais se importaram em saber notcias de Bill, ou do pequeno Kyle. No compareceram ao seu batizado e...
	Srta. McAdams  Evan Harcourt apartou, num tom delicado, mas firme.  Restrinja-se apenas a responder as questes que lhe forem dirigidas, est bem?
	Certo, meritssimo  ela assentiu, fechando os olhos por um instante.  Desculpe-me. Acho que me deixei tomar pelas emoes.
	E bem este o seu caso  disse Perry Waltman.  A senhorita  muito sensvel. E embora esta seja uma qualidade admirvel, pode perturbar sua estabilidade emocional.
	Eu no sou uma pessoa desequilibrada  Daniele retrucou, fitando-o com hostilidade.  O senhor est apoiando seus argumentos no fato de eu ter rompido o casamento com Roger Grant, de maneira impetuosa e um tanto grosseira. Mas s agi assim por amor a Kyle... Pois compreendi que no poderia viver sem ele.
Perry Waltman olhou-a com desagrado. Era bvio que as declaraes de Daniele fugiam do plano que ele havia traado. Tomando flego, ele tentou novamente assenhorar-se da situao. E o fez de maneira quase spera:
	A senhorita disse que Bill Delaney deixou um testamento, legando-lhe a guarda do filho...
	Exato.
	Infelizmente, srta. McAdams, devo inform-la de que isto no  verdade.
	Como no?  Daniele reagiu, apreensiva.
	No testamento, do qual tenho uma cpia...  Perry Waltman foi at sua mesa e abriu uma pasta, retirando alguns papis. Folheou-os e encontrou o que procurava:  Ah, aqui est... Bill Delaney diz que, no caso de seu falecimento ou de sua esposa, deseja que o filho seja entregue aos cuidados de... Daniele McAdams e Matthew Taylor, que afinal so padrinhos de Kyle. A senhorita no leu este documento?
	Sim, claro  Daniele respondeu, um tanto insegura.  Mas Bill s disse isso porque, na poca, eu e Matthew Taylor ramos noivos.
	Seja l por que for, Bill Delaney no legou a guarda da criana apenas para a senhorita.  Voltando-se para o juiz, Perry Waltman acrescentou:
 Creio, meritssimo, que isso encerra a questo. J que Bill Delaney no deixou seu filho apenas aos cuidados da srta. McAdams, mas sim dela e do dr. Taylor, aqui presente... E j que ambos no mais esto noivos e nem tampouco pretendem se casar... S nos resta entregar o beb a sua verdadeira e nica famlia.  Aps uma pausa, concluiu:  A testemunha est dispensada.
Evan Harcourt assentiu com um gesto de cabea e voltou-se para Matthew:
	A testemunha  sua, dr. Taylor.
	Creio que as declaraes da srta. McAdams j foram suficientemente esclarecedoras.  Matthew levantou-se e aproximou-se de Daniele.  Portanto, farei poucas perguntas...  Fitando-a com intensidade, indagou:  A senhorita foi capaz de romper seu casamento, no momento exato da cerimnia, apenas porque no suportava a idia de separar-se de Kyle Delaney?
	Sim  Daniele respondeu, emocionada.  E faria isso de novo, j que Kyle  a pessoa mais importante da minha vida.
	Certo... E no caso de a senhorita conseguir o direito de adotar o beb, como pretende cri-lo?
	Com muito amor, carinho, respeito... E o conforto material necessrio, naturalmente. Quero'dar-lhe um lar, tal como imagino que Bill e Karen fariam, se pudessem.
	Diga-me, senhorita, qual  a sua profisso?
	Sou enfermeira de alto padro.
	E a senhorita exerce este trabalho?
	Sim... No momento estou de frias do hospital. Mas retornarei ao emprego no final do ms.
	Compreendo... Quer dizer que, alm de um lar digno e algum conforto material, a senhorita poderia socorrer Kyle Delaney, numa emergncia?
	Claro.
	Dando-lhe uma boa assistncia mdica?
	Naturalmente. Alis, se eu adot-lo, ele ter direito  assistncia mdica especial, como meu dependente.
	Certo. E quem cuidaria do beb, enquanto a senhorita estivesse trabalhando?
	Temos uma creche, l no hospital, com professoras e babs especializadas. E h tambm minha me, que  pedagoga aposentada.
	timo. Bem, no quero tomar o seu tempo com novas perguntas, senhorita. Apenas peo-lhe que reafirme, uma vez mais, seu amor por Kyle Delaney.
	Eu o amo mais do que tudo no mundo.
	E por ele foi capaz de romper um romance com o sr. Grant?
	Vou lhe dizer uma coisa, dr. Taylor...  Daniele inclinou-se na direo de Matthew.  Sou capaz de tudo para adotar Kyle... No movida por um desejo infantil, mas sim porque acredito, piamente, que ele estar melhor comigo do que com a famlia Delaney. Se eu compreendesse que as irms Sarah e Vernica Delaney o criariam de um modo mais adequado, proporcionando-lhe alegrias que eu no poderia lhe dar, no hesitaria em abrir mo de Kyle, por mais que isso me custasse.
	Muito bem, srta. McAdams  Matthew sorriu, radiante. E voltou-se para o juiz.  No tenho mais perguntas, meritssimo.
	Nesse caso, a senhorita pode voltar ao seu lugar Evan Harcourt informou a Daniele, que obedeceu
prontamente.
	Voc ultrapassou as expectativas  Matthew lhe disse, baixinho.
	Como assim?
	Voc foi simplesmente perfeita  ele explicou, comovido.  Eu te amo, Daniele McAdams.
Ela o olhou com ar de espanto, diante daquela declarao de amor, to incabvel no ambiente austero do tribunal. Mas Matthew fez-lhe sinal para calar-se.
Tudo havia sido dito e explicado. Agora, o resultado do processo estava.nas mos do juiz.
O silncio caiu na sala. A tenso parecia quase palpvel no ar. E aps alguns minutos que a Daniele assemelharam-se a uma angustiante eternidade, Evan Harcourt manifestou-se:
	Senhoras e senhores... Estamos diante de um caso muito delicado. Segundo o protocolo jurdico, ns agora deveramos ouvir os argumentos do dr. Perry Waltman, bem como do dr. Matthew Taylor. Entretanto, ouso dizer que j temos, todos, uma viso ampla sobre o caso. A menos que os doutores advogados faam questo de falar um pouco mais...
	Eu desejo esclarecer alguns pontos, meritssimo disse Perry Waltman.
	Droga  Matthew murmurou.  Ele ainda quer continuar a briga.
	E voc no?  Daniele perguntou, baixinho.
Matthew sorriu:
	Conheo o juiz Evan Harcourt o suficiente para saber que ele j chegou a uma concluso sobre o caso. O que dissermos, daqui por diante, dificilmente o far mudar de idia.
	E qual seria essa concluso, Matthew?
Ele no teve tempo de responder, pois Perry Walt-man j iniciava sua explanao, fazendo um discurso inflamado sobre a generosidade de Jonathan Delaney, um homem que clamava pelo direito de criar o bisneto, sangue do seu sangue, com todo o amor e luxo que s uma famlia rica como os Delaney poderia proporcionar. Depois, traou um quadro romntico sobre Sarah e Vernica Delaney, duas mulheres sempre dedicadas s obras sociais, que agora viam seu direito legtimo de adotar Kyle Delaney sendo ameaado pela vontade de uma mulher voluntariosa, que bem poderia ter seus prprios filhos.
Daniele o ouvia com uma expresso tensa. A confiana que experimentara ainda h pouco ia se desvanecendo, dando lugar a uma sensao de medo... Medo de perder Kyle para a riqueza e o poder de uma famlia que jamais se importara com ele.
Foi com um sentimento de alvio que ela viu Perry Waltman chegar ao fim de sua explanao.
Agora, era a vez de Matthew...
	No tenho muito a dizer, exceto que Daniele McAdams merece ganhar esta causa. Ela sempre amou os pais de Kyle, a quem considerava como irmos. E deu-lhes sua palavra, por ocasio do batizado do beb, de que cuidaria dele se os pais lhe
faltassem. Ela abriu mo de uma vida a dois com o sr. Roger Grant, em funo desse objetivo. Causou
comoo em nossa cidade com sua atitude impulsiva e no se recusou a pagar as conseqncias. Pretender julgar essa demonstrao de amor como um ato desequilibrado,  no mnimo absurdo... Desumano, eu diria.  Matthew interrompeu-se e tomou flego. Pela primeira vez, em toda a sua carreira, sentia-se envolvido emocionalmente num caso.  E agora vou fazer uma revelao... Na manh em que Daniele McAdams fugiu de sua cerimnia de casamento, levando Kyle Delaney consigo, ela foi me procurar. E sabem o que me pediu, senhoras e senhores? Que eu a apoiasse como amigo e como advogado. Que eu no deixasse, de modo algum, que lhes tirassem Kyle Delaney. E  por isso que estou aqui, hoje... Para defender o direito dessa mulher que no se importou em romper com os valores morais de nossa cidade e que causou um verdadeiro escndalo em Woodbridge, apenas em nome... Do amor! Isso  tudo.
As palavras de Matthew causaram uma verdadeira comoo no ambiente. E o juiz Evan Harcourt assumiu a palavra:
	Bem, como eu dizia ainda h pouco, senhoras e senhores, estamos diante de um caso delicado. Por um lado, temos a famlia legtima de Kyle Delaney reclamando sua guarda... Por outro, uma mulher notvel, disposta a sacrificar tudo para adotar o beb.  Evan Harcourt fez uma pausa.  Confesso, senhores, que me sinto dividido. Percebi, pelo testamento de Bill Delaney, que ele desejava entregar seu filho a uma verdadeira famlia. Infelizmente, nem a srta. McAdams, nem as irms Delaney podero lhe proporcionar este precioso bem. Pois a srta. McAdams no  casada, nem tampouco as sras. Vernica e Sarah. Em ambos os casos, Kyle no poderia contar com um pai. Pois uma famlia  composta de me, pai e filhos.
	Oh, Deus...  Daniele murmurou.  Aonde ele pretende chegar?
Matthew no respondeu. Estava to tenso quanto Daniele e comeava a temer o pior. O juiz prosseguiu:
	Assim, visto que no tenho como oferecer ao pequeno Kyle uma verdadeira famlia, resta-me apelar para os princpios bsicos da lei de adoo.  Evan Harcourt comeou a folhear o cdigo civil, que tinha diante de si, sobre a mesa.  A lei diz que, neste caso, as pessoas ligadas por laos de sangue tm prioridade.
Uma exclamao de alegria brotou da garganta de Vernica Delaney, secundada por Sarah, que a abraou calorosamente e gritou:
	Ns vencemos!
Daniele ergueu-se, muito plida.
	Por favor, Matthew, no deixe que elas...  E no conseguiu dizer mais nada.
	Voc est disposta a tudo para ter Kyle, no ?  Matthew perguntou.
	A tudo  ela repetiu, com lgrimas nos olhos.
	Ento, vamos jogar a ltima cartada. Oua bem o que vou lhe dizer...
Matthew falava to rpido, que Daniele no entendia. Tudo estava acontecendo muito depressa.
	Meritssimo...  Matthew apartou.
	Pois no, dr. Taylor?
	O senhor disse que, se Daniele McAdams ou as irms Delaney pudessem oferecer uma verdadeira famlia para Kyle...
	Eu no hesitaria em dar minha sentena  Evan Harcourt completou.
	E se a vontade de Bill, expressa no testamento, pudesse se cumprir...
	Eu tambm no teria dvida alguma em oficializar esse desejo, doutor  Evan Harcourt respondeu, com um meio sorriso.  Agora pare de rodeios e d seu aparte.
Matthew suspirou. Sua voz grave e pausada soou um tanto trmula, ao anunciar:
	E se eu lhe dissesse que vou desposar Daniele McAdams dentro de alguns dias?
	O qu?  Perry reagiu, atnito.
	Ns vamos nos casar, meritssimo. E, assim, o testamento de Bill ser cumprido  risca.

EPLOGO

Nas rvores que circundavam o chal nmero 3, do hotel Green Place, os pssaros pareciam cantar de modo mais intenso e alegre.
Na espaosa cama de casal do mezanino, Daniele e Matthew se entregavam  mais perfeita das magias: a descoberta de sensaes novas, trilhando os mais belos caminhos do prazer... Era a entrega total.
Nunca, nem mesmo em seus sonhos mais loucos, Daniele pudera conceber o amor, em toda a sua plenitude.
Matthew a conduzia, entre "carcias e palavras apenas sussurradas, ao momento da posse total. No havia pressa... Para que pressa, se agora teriam todo o tempo do mundo para se amar?
O sentimento de vergonha que Daniele tivera, no inicio da relao, ia agora cedendo lugar a algo bem diferente: o desejo de buscar, atravs de toques e olhares, o caminho do verdadeiro amor.
Pela janela aberta entrava uma brisa fresca, que parecia acariciar os amantes entregues  mais sutil das coreografias. Em movimentos compassados, os corpos procuravam a harmonia total.
O desejo ditava o que deveria ser feito. No era preciso pensar. O raciocnio pouco ou nada contava naquele momento, reservado unicamente a Cupido e seus caprichos.
Quando por fim Matthew a possuiu, Daniele viu-se arrebatada de si mesmo. Uma sensao de fogo, que durou apenas um segundo, transformou-se numa sensao de ondas quentes e sucessivas, onde ela podia se deixar embalar docemente... De repente sentiu-se alada a um plano muito alto, onde as emoes eram indescritveis. E ento foi projetada numa queda vertiginosa... Para mergulhar num sono profundo, sem imagens.
O amor estava consumado. A felicidade viera para ficar. Nada no mundo poderia modificar este fato... Nem o poder absoluto do amor.


FIM

